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O mundo nunca gastou tanto em armas — estamos a preparar-nos para quê?

Enquanto milhões de pessoas enfrentam fome, pobreza, falta de água, hospitais sem recursos e famílias inteiras fogem de guerras, a humanidade continua a encontrar dinheiro para uma prioridade que parece não conhecer limites: armar-se. O mundo nunca gastou tanto em armas como hoje.

Em 2025, o mundo gastou cerca de 2,887 biliões de dólares em despesas militares, o valor mais elevado alguma vez registado pelo Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Foi o 11.º ano consecutivo de aumento e, em apenas uma década, as despesas militares mundiais cresceram cerca de 41% em termos reais. SIPRI — Military Expenditure 2025

Não estamos perante alguns milhões adicionais destinados à defesa. Estamos a falar de quase 2,9 milhões de milhões de dólares num único ano.

A pergunta impõe-se: estamos a defender a paz ou estamos simplesmente a preparar melhor a próxima guerra?

Nunca tivemos tanta tecnologia. Continuamos a escolher as armas.

A humanidade consegue enviar sondas para o espaço, desenvolver inteligência artificial, criar tratamentos médicos extraordinários e comunicar instantaneamente entre continentes. Mas continua incapaz de resolver uma das suas fraquezas mais antigas: a necessidade de enfrentar o outro pela força.

Os Estados Unidos, a China e a Rússia gastaram, juntos, cerca de 1,48 biliões de dólares em defesa em 2025, representando aproximadamente 51% de todas as despesas militares mundiais. Se acrescentarmos Alemanha e Índia, os cinco países que mais gastam representam 58% do total mundial. E a corrida acelera noutras regiões.

A Europa aumentou as despesas militares 14% num único ano, atingindo 864 mil milhões de dólares. Na Ásia e Oceânia, o crescimento chegou aos 8,1%. Cada país apresenta argumentos compreensíveis: segurança nacional, proteção das fronteiras, dissuasão, ameaças externas, defesa dos aliados. Europa envelhece

E seria ingénuo defender que um país deve simplesmente abandonar as suas Forças Armadas enquanto outros continuam a reforçar as suas.

Um Estado tem o direito — e o dever — de se defender.

O problema começa quando todos passam a sentir que precisam de mais armas porque os outros também compram mais armas.

Um país compra mísseis. O vizinho responde com novos sistemas antimíssil. Outro aumenta o número de aviões. O adversário compra drones. Depois surgem submarinos, satélites militares, armas hipersónicas e modernização dos arsenais nucleares.

Cada passo é apresentado como defensivo. Mas, no final, todos estão mais armados e ninguém se sente verdadeiramente mais seguro.

Para as armas há milhares de milhões. Para salvar vidas faltam milhões.

É aqui que o retrato da humanidade se torna particularmente desconfortável. Segundo números apresentados nas Nações Unidas em 2026, cerca de 239 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária. Perante a falta de financiamento, a resposta internacional teve de concentrar os recursos nos casos mais graves, procurando chegar a 87 milhões de pessoas com um orçamento prioritário de cerca de 23,6 mil milhões de dólares. ONU — Crisis and Emergency Response

Comparemos apenas a dimensão dos números.

O mundo gastou 2.887 mil milhões de dólares em defesa em 2025. O esforço humanitário prioritário referido pelas Nações Unidas para 2026 procura 23,6 mil milhões.

Não são orçamentos diretamente comparáveis, mas o contraste é brutal: o primeiro valor é mais de 120 vezes superior ao segundo.

Não faltam recursos no planeta.

Faltam prioridades.

Encontramos rapidamente centenas de milhares de milhões para novos sistemas militares, mas organizações humanitárias passam meses a pedir uma pequena fração desses valores para alimentar populações, fornecer medicamentos ou garantir água potável.

Talvez esta seja uma das maiores contradições da nossa civilização.

E se estivermos a preparar exatamente aquilo que dizemos querer evitar?

A história ensina-nos que períodos de forte rearmamento nem sempre terminam em guerra. A dissuasão também pode evitar conflitos.

Mas a história ensina outra coisa: quanto mais armas existem e quanto maior é a tensão entre potências, maior se torna o preço de um erro político, militar ou humano.

Hoje construímos armas capazes de atingir alvos a milhares de quilómetros, drones capazes de matar sem colocar soldados em risco e arsenais nucleares capazes de destruir cidades inteiras.

Chamamos a tudo isto progresso tecnológico.

Mas talvez devêssemos perguntar se o verdadeiro progresso não seria conseguir viver sem precisar de usar essas tecnologias uns contra os outros.

O problema não está apenas nos governos. Está em nós…

Somos uma espécie extraordinariamente inteligente que continua a investir uma parte gigantesca da sua riqueza na possibilidade de se destruir.

Construímos hospitais para salvar vidas e bombas para as terminar. Ensinamos às crianças que a violência não resolve problemas enquanto os adultos investem milhares de milhões em instrumentos de guerra.

Talvez seja necessário ter armas para preservar a paz.

Mas quando o mundo bate recordes sucessivos de despesas militares, devemos pelo menos ter coragem para perguntar:

Estamos realmente a comprar segurança — ou estamos lentamente a preparar-nos para a próxima grande tragédia?

Porque uma humanidade que nunca encontrou tanto dinheiro para se armar deveria começar a perguntar por que razão continua a ter tanta dificuldade em encontrar dinheiro para cuidar de si própria. Ironias dos seres humanos.

Fontes: SIPRI Military Expenditure + SIPRI Yearbook + ONU Humanitarian Response

Sentinela Lusa

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