No dia 5 de outubro, Portugal celebra a Implantação da República. Em 2026, passam 116 anos sobre a revolução que derrubou a monarquia e abriu um novo capítulo da nossa história. Porém, conhecer esta data exige mais do que aproveitar um feriado. Exige compreender o que aconteceu, reconhecer as dificuldades do novo regime e refletir sobre a responsabilidade de quem governa em nome dos portugueses.
Como nasceu a República portuguesa?
Antes da revolução, o movimento republicano ganhou força entre setores descontentes com a monarquia. O Ultimato britânico de 1890 alimentou esse crescimento, ao provocar uma profunda indignação nacional. Mais tarde, o assassinato de D. Carlos e do príncipe herdeiro, em 1908, agravou a crise política. Contudo, vários republicanos condenaram o regicídio, como explica o Museu da Presidência da República.
Neste ambiente, republicanos e elementos do Exército e da Armada prepararam o derrube do regime. A revolução começou em Lisboa, nas primeiras horas de 4 de outubro de 1910. Os confrontos prolongaram-se até à manhã seguinte. Apesar dos contratempos dos revoltosos, as forças monárquicas não conseguiram travar a insurreição. Assim, o movimento transformou uma conspiração política numa mudança decisiva para o país.
Na manhã de 5 de outubro, José Relvas proclamou a República da varanda da Câmara Municipal de Lisboa. A monarquia terminou e os republicanos assumiram o poder. Esse momento marcou uma rutura institucional profunda, mas não apagou o passado português. Portugal já existia havia séculos, com uma identidade, uma língua e uma história que atravessavam diferentes reinados e gerações.
Novos símbolos e novas instituições
Depois da vitória, os dirigentes republicanos organizaram as instituições do novo regime. A Assembleia Nacional Constituinte aprovou a Constituição em 21 de agosto de 1911 e elegeu Manuel de Arriaga como primeiro Presidente da República constitucional. A Assembleia da República apresenta esse processo e explica a organização política da Primeira República.
Entretanto, o novo poder também alterou os símbolos nacionais. A bandeira verde e vermelha substituiu a bandeira da monarquia, enquanto «A Portuguesa» assumiu o estatuto de hino nacional. A Presidência da República descreve a escolha destes símbolos, que ainda hoje acompanham cerimónias públicas, competições desportivas e momentos de união entre portugueses.
Todavia, a mudança de regime não trouxe imediatamente uma democracia semelhante à atual. A Primeira República manteve importantes limitações à participação eleitoral e atravessou conflitos políticos. Finalmente, o golpe militar de 28 de maio de 1926 encerrou esse período. Por isso, devemos estudar o percurso republicano com rigor, reconhecendo as suas ambições, mas também os seus limites e fracassos.

República e independência: duas datas diferentes
Além disso, importa distinguir dois feriados nacionais. O 5 de Outubro celebra a Implantação da República, em 1910. Já o 1 de Dezembro recorda a Restauração da Independência, em 1640, após sessenta anos de monarquia dual sob os reis da dinastia filipina. A Hemeroteca Municipal de Lisboa explica o contexto dessa recuperação da soberania portuguesa.
Embora assinalem acontecimentos diferentes, ambas as datas convidam os portugueses a conhecer o país. Uma recorda a mudança da forma de governo; a outra recorda a recuperação da independência. Compreender essa diferença ajuda-nos a transmitir uma memória mais clara aos jovens e a valorizar o significado dos feriados que recebemos das gerações anteriores.
Celebrar também exige responsabilidade
Hoje, a celebração republicana deve estimular uma reflexão sobre o exercício do poder. Na nossa perspetiva, quem assume funções públicas deve servir o interesse nacional, prestar contas e respeitar os cidadãos. A exigência começa nas decisões concretas: administrar recursos com seriedade, explicar escolhas e aceitar o escrutínio. Nenhuma cerimónia substitui esse trabalho diário. Também devemos avaliar os responsáveis pela forma como respondem aos problemas das comunidades. O respeito pela bandeira ganha sentido quando acompanha o respeito pelas pessoas, pelo património e pelos compromissos que os representantes políticos assumem.
Por isso, honrar Portugal exige participação e memória. Os cidadãos podem questionar os governantes, acompanhar decisões e exigir instituições responsáveis. Ao mesmo tempo, famílias e escolas podem ensinar a história sem simplificações nem mitos. Neste 5 de Outubro, celebremos com conhecimento e espírito crítico. A República pertence à história portuguesa; o futuro de Portugal depende também de nós.
Fontes: Museu da Presidência da República, Hemeroteca Municipal de Lisboa
Sentinela Lusa

