Há um Portugal onde percorrer dezenas de quilómetros para chegar a um hospital, encontrar determinados serviços públicos ou procurar um emprego qualificado continua a fazer parte da realidade. Um território enorme, rico em agricultura, energia, património e recursos naturais, mas onde a população permanece dispersa e envelhecida.
Esse território é o Alentejo.
Durante décadas, Portugal concentrou grande parte da população, atividade económica e oportunidades no litoral. Enquanto Lisboa, Porto e as respetivas áreas metropolitanas cresceram, várias zonas do Interior perderam habitantes e capacidade económica.
O Alentejo tornou-se um dos exemplos mais evidentes dessa desigualdade territorial.
Um território enorme com pouca população
Os números mostram a dimensão do problema.
Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o Alentejo apresentava em 2022 apenas 22,9 habitantes por quilómetro quadrado, a densidade populacional mais baixa entre as regiões NUTS II portuguesas consideradas nessa configuração estatística. Na Área Metropolitana de Lisboa, o valor ultrapassava os 1.000 habitantes por km².
A atualização estatística posterior continua a mostrar fortes assimetrias territoriais e coloca o Alentejo entre as regiões menos populosas do país.
Mas a baixa densidade populacional não deve ser analisada apenas como uma característica geográfica.
Existe uma pergunta que Portugal raramente coloca:
O investimento diminuiu porque há pouca população, ou há pouca população porque durante décadas faltaram oportunidades capazes de fixar pessoas?
Provavelmente, os dois fenómenos alimentam-se mutuamente. Península Ibérica em Números — INE
Quando os jovens partem para estudar e não encontram condições para regressar, desaparecem trabalhadores, famílias e potenciais empreendedores. Com menos população, torna-se depois mais difícil justificar escolas, transportes, comércio e outros serviços.
Cria-se um círculo vicioso.
Quando partir parece mais fácil do que ficar
O problema não é simplesmente demográfico.
É económico.
Um jovem pode gostar da sua terra, querer ficar perto da família e valorizar a qualidade de vida do Alentejo. Mas isso dificilmente chega se não encontrar emprego compatível com as suas qualificações.
O mesmo acontece com uma família que considere mudar-se para o Interior. Antes de tomar essa decisão, precisa de saber se existem escolas, cuidados de saúde, transportes, Internet de qualidade e oportunidades profissionais.
A desertificação não acontece apenas porque as pessoas deixaram espontaneamente de gostar do Interior.
Também acontece quando ficar significa aceitar menos oportunidades.
Os dados recentes da Pordata mostram, contudo, que a realidade não é uniforme. Alguns municípios alentejanos têm conseguido recuperar população, em parte devido aos movimentos migratórios. Em Ferreira do Alentejo, por exemplo, a população cresceu significativamente entre 2021 e 2025, apesar de o saldo natural permanecer negativo.
Isso demonstra igualmente que o declínio não é inevitável.

Um território que produz riqueza
O paradoxo torna-se ainda maior quando observamos aquilo que o Alentejo oferece ao país.
Agricultura, vinho, azeite, cortiça, pecuária, turismo, energia solar, recursos minerais e projetos associados ao Alqueva fazem da região um território economicamente estratégico.
No litoral, existe ainda o complexo industrial e portuário de Sines, com importância nacional e internacional.
O desafio está em transformar esses recursos em mais valor acrescentado, empresas, conhecimento e emprego permanente dentro da própria região.
Produzir energia no Alentejo não chega se os empregos tecnológicos associados forem criados noutro lugar.
Produzir matérias-primas também não chega se grande parte da transformação industrial ocorrer longe da região.
O desenvolvimento regional exige que uma parcela cada vez maior da riqueza criada no território produza também oportunidades para quem nele vive.
Transportes continuam a ser fundamentais
Nenhuma política de desenvolvimento do Interior funcionará sem boas ligações.
Nesse domínio existem investimentos importantes em curso.
Em julho de 2026, a Infraestruturas de Portugal avançou com a modernização e duplicação do troço Poceirão–Bombel da Linha do Alentejo, integrado no PNI 2030. O projeto representa um investimento global de cerca de 270 milhões de euros e prevê condições para velocidades ferroviárias até 220 km/h, reforçando igualmente o corredor Lisboa–Évora–Madrid.
São investimentos relevantes.
Mas décadas de desequilíbrio territorial dificilmente serão corrigidas apenas com uma obra ferroviária ou rodoviária.
É necessária continuidade.
Mais de mil milhões para o Alentejo 2030
Também seria incorreto afirmar que atualmente não existe investimento público destinado à região.
O Programa Regional Alentejo 2030 dispõe de aproximadamente 1.104 milhões de euros, provenientes do FEDER, FSE+ e Fundo para uma Transição Justa. Entre as prioridades estão a competitividade, conectividade, qualificação, sustentabilidade e coesão territorial.
Dentro desse programa, 440,9 milhões de euros foram destinados aos Investimentos Territoriais Integrados das comunidades intermunicipais, cerca de 40% da dotação financeira do programa.
O dinheiro, portanto, existe.
A verdadeira questão passa a ser outra:
Será aplicado em projetos capazes de mudar estruturalmente a região?
Porque construir não basta. É preciso criar condições para que empresas invistam, jovens permaneçam e famílias regressem.
O Alentejo precisa de pessoas, não apenas de projetos
Estradas, ferrovia e fundos europeus são importantes, mas o desenvolvimento mede-se sobretudo pela capacidade de criar vida económica sustentável.
É necessário aproximar empresas das universidades e institutos politécnicos, incentivar indústria transformadora, promover polos tecnológicos, aproveitar a produção energética e agrícola e garantir serviços públicos capazes de servir territórios com baixa densidade populacional.
A própria estratégia regional Alentejo 2030 reconhece desafios persistentes ligados à demografia, conectividade, competitividade, emprego e capacidade de atração de pessoas e empresas.
Talvez seja esse o ponto essencial.
O Alentejo não precisa de ser transformado numa segunda Lisboa.
Precisa de ter condições para que viver em Évora, Beja, Portalegre, Moura, Elvas ou numa pequena vila não signifique necessariamente ter menos oportunidades.
Portugal é demasiado pequeno para continuar dividido entre um litoral congestionado e um Interior que luta para manter população.
Durante demasiado tempo, discutimos a desertificação como se fosse inevitável.
Não é.
Um território começa a morrer quando deixa de oferecer razões para ficar. E pode renascer quando voltamos a dar-lhe razões para viver.
O Alentejo tem território, recursos, identidade e potencial.
Falta garantir que o investimento e as oportunidades acompanham tudo aquilo que a região tem para oferecer.
Porque desenvolver o Alentejo não é apenas uma questão regional.
É desenvolver Portugal.
Fontes: INE, Pordata, Infraestruturas de Portugal
Sentinela Lusa

