Poucos nomes em Lisboa carregam tanto simbolismo como Martim Moniz. Neste artigo vamos explorar Martim Moniz: do herói de 1147 à praça que tem o seu nome. Segundo a tradição, foi um dos homens que ajudaram D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa aos muçulmanos, em 1147. Quase nove séculos depois, o seu nome identifica uma das praças mais conhecidas e problemáticas da capital portuguesa.
A História mudou profundamente aquele lugar. E o contraste entre o significado histórico de Martim Moniz e a realidade atual da praça que tem o seu nome não deixa ninguém indiferente. Por isso, Martim Moniz: do herói de 1147 à praça que tem o seu nome tornou-se um tema central quando falamos de Lisboa.
Quem foi Martim Moniz?
A tradição portuguesa apresenta Martim Moniz como um cavaleiro que participou no cerco de Lisboa, em 1147. Nesse ano, D. Afonso Henriques, apoiado por forças portuguesas e por cruzados estrangeiros, avançou sobre Lisboa, então sob domínio muçulmano.
Segundo a lenda, durante um dos ataques às muralhas, os defensores tentaram fechar uma das portas da cidade. Martim Moniz terá percebido a oportunidade e colocado o próprio corpo entre as portas, impedindo que estas se fechassem completamente. Porta de Martim Moniz – Castelo de São Jorge
O seu sacrifício teria permitido a entrada dos combatentes cristãos na cidade para combater os muçulmanos.
Martim Moniz morreu, mas o seu nome ficou associado à coragem, ao sacrifício e à conquista de Lisboa.
Importa, no entanto, distinguir História de lenda. Os relatos contemporâneos conhecidos da conquista de Lisboa não confirmam este episódio. Por isso, muitos historiadores consideram que a história de Martim Moniz foi construída ou engrandecida ao longo dos séculos.
Ainda assim, a sua figura tornou-se parte da memória coletiva portuguesa.

Hoje, uma praça profundamente diferente
Hoje, a Praça Martim Moniz, no centro de Lisboa, apresenta uma realidade completamente diferente daquela que existia em 1147. Ademais, Martim Moniz: do herói de 1147 à praça que tem o seu nome revela diferentes camadas da história da cidade.
A praça e as zonas próximas da Mouraria e da Avenida Almirante Reis tornaram-se alguns dos espaços mais multiculturais da capital. Ali convivem pessoas provenientes de diferentes países, culturas e religiões.
Comércio asiático, restaurantes internacionais, comunidades africanas, brasileiras, sul-asiáticas e de outras origens fazem hoje parte da paisagem urbana daquela zona.
É precisamente aqui que surge um contraste histórico curioso.
O homem cujo nome ficou associado, segundo a tradição, à conquista cristã de Lisboa aos muçulmanos dá hoje nome a uma praça conhecida precisamente pela sua diversidade cultural e grande presença de muçulmanos.
Uma ironia da História?
Seria incorreto dizer que as pessoas que atualmente frequentam ou vivem naquela zona são “as mesmas” contra quem Martim Moniz combateu.
Separaram esses acontecimentos quase 900 anos de História.
As populações mudaram, as fronteiras mudaram e o mundo mudou. Mas isso não elimina o simbolismo de Martim Moniz: do herói de 1147 à praça que tem o seu nome na nossa identidade coletiva.
A Praça Martim Moniz tornou-se quase um retrato das transformações recentes de Lisboa. A cidade está hoje muito mais internacional, diversa e multicultural do que há algumas décadas.
Para uns, esta transformação representa abertura, dinamismo e convivência entre culturas.
Para outros e onde eu me incluo, levanta questões legítimas sobre integração, segurança, identidade cultural e preservação da memória portuguesa. Essas duas perspetivas podem coexistir.
Integrar também significa conhecer e amar Portugal
Portugal pode acolher pessoas de diferentes origens sem abdicar da sua própria História.
Aliás, uma verdadeira integração não deveria limitar-se a viver e trabalhar num determinado território. Também implica conhecer a língua, as tradições, os valores e a memória histórica do país de acolhimento. Quem atravessa diariamente a Praça Martim Moniz talvez nem saiba quem foi o homem que lhe deu o nome. Política de imigração e integração.
E talvez seja precisamente esse o ponto mais interessante deste contraste. Em suma, Martim Moniz: do herói de 1147 à praça que tem o seu nome evidencia bem as mudanças que ocorreram em Lisboa e na própria sociedade portuguesa.
Uma cidade pode mudar. Uma sociedade pode tornar-se mais diversa. Mas isso não significa que deva esquecer aquilo que aconteceu antes.
Martim Moniz poderá ser uma figura parcialmente lendária, mas o seu nome tornou-se inseparável da História de Lisboa e da conquista de 1147.
Hoje, esse mesmo nome permanece no centro de uma Lisboa profundamente diferente. Portanto, Martim Moniz: do herói de 1147 à praça que tem o seu nome relembra a ligação direta entre passado e presente.
A História tem destas ironias: os lugares mudam, as populações mudam, mas os nomes continuam a lembrar-nos de onde viemos. No entanto, há uma curiosidade que me atravessa o espírito: e se Martim Moniz voltasse, o que diria?
A minha opinião sobre o estado atual desta praça.
Durante décadas, péssimas decisões políticas sucessivas transformaram profundamente o Martim Moniz. Ruas e edifícios desapareceram, negócios tradicionais fecharam e grande parte da identidade histórica da zona perdeu-se. Só se vê comércio asiático…
Para muitos portugueses, o espaço deixou de representar a Lisboa popular de outros tempos e passou a simbolizar degradação, desorganização e perda de identidade.
O Martim Moniz já foi um lugar onde se encontravam comerciantes portugueses, mercados, tascas, procissões, fado e a vida popular de Lisboa… hoje, cada vez se vêem menos portugueses nesta praça… vemos pessoas do Bangladesh, Índia, Nepal, Paquistão…
O problema do Martim Moniz não é apenas a miséria em que se transformou, mas tudo aquilo que Portugal deixou desaparecer por incompetência e cegueira dos nossos políticos.
Fontes: RTP, Castelo de São Jorge
Sentinela Lusa


Adoro a forma simples e verdadeira como escrevem os imensos temas.
A de Martim Moniz, achei muito interessante terem questionado se “seriam os mesmos árabes..”.. a história repete-se também já se sabe, para podermos ultrapassar os “nossos karmas” apesar que até esses já terminaram 😉 .. Continuando nessa forma de pensar, os governantes que a Europa tem, será que a sua origem não é da época dos romanos? Pão e circo não falta por este pobre país.
Voltando ao tema, já conhecia a história, pois fazia parte dos ensinamentos nas escolas “antigas” de Portugal.
Obrigada pela vossa existência 🙏
Muito obriagado Maria pelas suas palavras!