InícioGeopolíticaEstreito de Ormuz: a pequena passagem que pode abalar a economia mundial

Estreito de Ormuz: a pequena passagem que pode abalar a economia mundial

Poucos lugares no planeta demonstram tão claramente como a geografia continua a determinar o poder. Assim, O Estreito de Ormuz, uma passagem marítima entre o Irão e a Península Arábica, é relativamente pequeno no mapa, mas tem uma importância gigantesca para a economia mundial. Importância gigantesca para a economia mundial.

É a principal ligação marítima entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã e, a partir daí, com o oceano Índico. Além disso, no seu ponto mais estreito, tem cerca de 54 quilómetros de largura. No entanto, os corredores utilizados pela navegação comercial são muito mais reduzidos. Por isso, a sua verdadeira importância percebe-se quando olhamos para aquilo que passa por ali.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), em 2025 atravessaram Ormuz cerca de 20 milhões de barris de petróleo e produtos petrolíferos por dia, correspondendo aproximadamente a 25% de todo o comércio mundial de petróleo transportado por via marítima. Cerca de 80% desses fluxos tiveram como destino a Ásia.

Uma artéria energética do planeta

Alguns dos maiores produtores mundiais de petróleo encontram-se no Golfo Pérsico. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait, Qatar, Bahrein e Irão utilizam Ormuz para escoar uma parte importante da sua produção.

Existem, no entanto, algumas alternativas. Por exemplo, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos possuem oleodutos capazes de desviar parte das exportações. Ainda assim, segundo a AIE, a capacidade disponível dessas rotas alternativas situa-se aproximadamente entre 3,5 e 5,5 milhões de barris por dia — muito abaixo dos cerca de 20 milhões que normalmente atravessam o estreito. Além disso, não é apenas petróleo.

Em 2025, mais de 110 mil milhões de metros cúbicos de Gás natural liquefeito (GNL) passaram por Ormuz. O volume representou quase 20% do comércio mundial de GNL, devido sobretudo às enormes exportações do Qatar.

Isto significa que uma perturbação prolongada nesta pequena passagem marítima pode produzir consequências a milhares de quilómetros de distância: subida dos preços da energia, aumento dos custos dos transportes, pressão sobre a indústria e, em última análise, maior inflação para empresas e famílias.

Os acontecimentos de 2026 demonstraram de forma particularmente clara essa vulnerabilidade. O conflito no Médio Oriente provocou uma redução drástica dos movimentos de petroleiros através do estreito e uma forte perturbação dos mercados internacionais de petróleo e gás. A AIE classificou a situação como a maior perturbação de oferta da história do mercado petrolífero mundial.

A importância de Portugal no passado

Há, porém, um capítulo desta história que muitos portugueses desconhecem.

Portugal compreendeu a importância estratégica de Ormuz há mais de 500 anos. Território estratégico.

Em 1507, uma armada comandada por Afonso de Albuquerque chegou a Ormuz. Depois de uma primeira tentativa de domínio, Albuquerque regressou em 1515 e estabeleceu definitivamente a presença portuguesa na ilha. Ormuz permaneceu sob domínio/protetorado português durante mais de um século, até 1622.

A estratégia portuguesa era extraordinariamente ambiciosa para um país europeu relativamente pequeno. Portugal procurava controlar os grandes pontos de passagem do comércio oriental.

Goa garantia uma posição privilegiada na Índia. Malaca permitia controlar uma das principais ligações comerciais com o Sudeste Asiático. Ormuz dava acesso ao Golfo Pérsico.

A importância de Ormuz não era petrolífera — o petróleo ainda não tinha a relevância económica atual. O que interessava eram as rotas comerciais, por onde circulavam mercadorias e riqueza entre a Pérsia, a Península Arábica, a Índia e outros mercados asiáticos.

A posição era tão importante que os portugueses construíram uma fortaleza na ilha, símbolo da presença militar portuguesa na região. A própria Pérsia safávida considerava essa presença uma questão estratégica.

Em 1622, forças persas do xá Abbas I, apoiadas navalmente pela Companhia Inglesa das Índias Orientais, conquistaram Ormuz e terminaram com o domínio português.

Cinco séculos depois, a geografia continua a mandar

Mudaram os impérios, mudaram as mercadorias e mudou completamente a economia mundial.

Mas Ormuz continua no mesmo lugar.

Há cinco séculos, por ali passavam especiarias, cavalos, tecidos e outras mercadorias valiosas. Hoje passam milhões de barris de petróleo e enormes quantidades de gás.

É talvez esta a parte mais fascinante da história: Afonso de Albuquerque percebeu há mais de 500 anos o valor estratégico de uma passagem marítima que continua, no século XXI, a influenciar a economia mundial.

A tecnologia mudou o mundo. A geografia, nem tanto…

Fontes: International Energy Agency (IEA), U.S. Energy Information Administration (EIA)

Sentinela Lusa

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