Durante décadas, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas apresentou-se como uma potência indestrutível. Possuía armas nucleares, controlava um território gigantesco e disputava com os Estados Unidos a liderança mundial. No entanto, por trás dos desfiles militares e da propaganda oficial, acumulavam-se problemas económicos, sociais e políticos.
Em dezembro de 1991, a superpotência desapareceu do mapa. A queda da União Soviética não resultou de uma única causa, mas da combinação entre uma economia estagnada, um Estado autoritário, os custos da corrida armamentista e a vontade de independência das várias repúblicas soviéticas.
Uma economia completamente controlada pelo Estado
A União Soviética adotou uma economia planificada. O Estado decidia o que produzir, em que quantidade e a que preço. Inicialmente, esse modelo permitiu uma rápida industrialização e ajudou a transformar o país numa grande potência militar.
Contudo, com o passar dos anos, o sistema revelou limitações profundas. As empresas públicas não enfrentavam concorrência e tinham poucos incentivos para inovar, melhorar a qualidade ou responder às necessidades dos consumidores. Além disso, uma enorme burocracia controlava praticamente toda a atividade económica.
Enquanto o regime investia fortemente no armamento, na indústria pesada e no programa espacial, faltavam alimentos, roupa, eletrodomésticos e outros bens essenciais. Segundo a Encyclopaedia Britannica, a economia soviética entrou num período de forte estagnação durante as décadas de 1970 e 1980.
Consequentemente, as filas diante das lojas tornaram-se habituais. Muitos cidadãos tinham dinheiro, mas não encontravam produtos para comprar. A URSS conseguia enviar homens ao espaço, mas não conseguia garantir uma vida confortável a milhões de pessoas.
Este fracasso mostrou algumas das limitações de um sistema no qual o poder político e económico se concentrava quase totalmente nas mãos do Estado. Para compreender melhor as origens desta ideologia, leia também o artigo do Sentinela Lusa sobre o comunismo e a sua aplicação ao longo da História
A corrida armamentista consumiu recursos
Ao mesmo tempo, a Guerra Fria obrigava Moscovo a gastar enormes recursos na competição militar com os Estados Unidos. A URSS financiava um dos maiores exércitos do mundo, mantinha tropas em vários países e apoiava governos e movimentos aliados em diferentes continentes.
Além disso, em 1979, o Exército soviético invadiu o Afeganistão. A guerra soviética no Afeganistão prolongou-se durante quase uma década, provocou milhares de mortes e consumiu recursos que já começavam a faltar noutras áreas.
A queda dos preços do petróleo durante os anos 1980 agravou a situação. Como Moscovo dependia fortemente das exportações de energia para obter receitas, passou a enfrentar dificuldades crescentes para financiar o seu império, modernizar a economia e satisfazer as necessidades da população.
Gorbatchov tentou salvar o sistema
Quando Mikhail Gorbatchov chegou ao poder, em 1985, percebeu que a União Soviética precisava de mudanças profundas. Por isso, lançou duas reformas que ficaram conhecidas em todo o mundo: a perestroika, destinada a reestruturar a economia, e a glasnost, que promoveu uma maior abertura política e liberdade de expressão.
Gorbatchov não pretendia destruir a União Soviética. Pelo contrário, queria modernizar o país e salvar o sistema socialista. No entanto, as reformas acabaram por expor problemas que o regime escondera durante décadas.
Com uma maior liberdade de expressão, os cidadãos começaram a denunciar a corrupção, a repressão, os crimes do período de Estaline e as mentiras da propaganda oficial. Pela primeira vez, milhões de soviéticos puderam questionar abertamente o funcionamento do regime.
A catástrofe nuclear de Chernobyl, ocorrida em abril de 1986, agravou ainda mais a desconfiança. As autoridades tentaram inicialmente esconder a dimensão do acidente, colocando vidas em risco e demonstrando que o velho hábito do segredo continuava presente.
Entretanto, as reformas económicas não produziram os resultados esperados. O Estado perdeu parte do controlo sobre a economia, mas não criou um verdadeiro mercado livre. Assim, a produção caiu, a escassez aumentou e a população tornou-se ainda mais descontente.

A Europa de Leste deixou de obedecer a Moscovo
Em 1989, os regimes comunistas da Europa de Leste começaram a cair. Polónia, Hungria, Checoslováquia, Bulgária e Roménia abandonaram os sistemas políticos que Moscovo tinha ajudado a impor ou a manter.
O acontecimento mais simbólico ocorreu em 9 de novembro de 1989: a queda do Muro de Berlim. Ao contrário do que acontecera em crises anteriores, a União Soviética não enviou tanques para esmagar as revoltas populares.
A abertura da fronteira mostrou também qual dos dois sistemas atraía a população. Durante a existência do muro, milhares de alemães arriscaram a vida para fugir da Alemanha Oriental comunista para a Alemanha Ocidental, e não no sentido contrário.
A perda do controlo sobre a Europa de Leste destruiu uma parte fundamental da influência internacional soviética. Além disso, demonstrou que Moscovo já não tinha força política nem capacidade económica para manter unido o seu bloco.
As repúblicas soviéticas exigiram independência
A URSS não era um país homogéneo. Reunia 15 repúblicas, diferentes povos, línguas, religiões e identidades nacionais. Durante décadas, o poder central reprimiu muitos movimentos independentistas. Contudo, a abertura promovida por Gorbatchov permitiu que esses sentimentos regressassem.
As repúblicas bálticas — Estónia, Letónia e Lituânia — lideraram o processo. Posteriormente, outras repúblicas também exigiram soberania ou declararam a independência.
Em agosto de 1991, dirigentes conservadores do Partido Comunista tentaram um golpe de Estado contra Gorbatchov. A tentativa fracassou, mas enfraqueceu definitivamente o presidente soviético e fortaleceu Boris Ieltsin, então presidente da República Russa.
Nos meses seguintes, a União Soviética desintegrou-se rapidamente. Como explica o Office of the Historian do Departamento de Estado norte-americano, várias repúblicas declararam a independência e os líderes da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia anunciaram que a URSS deixava de existir.
Em 25 de dezembro de 1991, Gorbatchov apresentou a demissão. No dia seguinte, a União Soviética foi formalmente dissolvida. A bandeira vermelha foi retirada do Kremlin e quase 70 anos de regime soviético chegaram ao fim.
Nenhum regime é indestrutível
A União Soviética não caiu apenas devido à pressão dos Estados Unidos ou do Ocidente. O sistema também se desfez a partir do interior. A economia já não respondia às necessidades da população, o Estado reprimia a liberdade, a burocracia escondia os fracassos e as diferentes repúblicas deixaram de aceitar o domínio de Moscovo.
Contudo, a transição posterior também teve consequências dolorosas. A Rússia e outras antigas repúblicas soviéticas enfrentaram pobreza, desemprego, corrupção e uma forte concentração da riqueza. Portanto, o fim da URSS não resolveu automaticamente todos os problemas.
Ainda assim, o colapso soviético deixou uma lição importante: nenhum regime é verdadeiramente indestrutível. Um Estado pode possuir armas, território e uma poderosa máquina de propaganda. Porém, dificilmente sobrevive quando a economia deixa de funcionar e o poder perde a confiança do seu próprio povo.
Como seria o mundo hoje se ainda existisse a URSS?
Fontes: Encyclopaedia Britannica para a história da URSS, Office of the Historian dos EUA para a dissolução da União Soviética em 1991
Sentinela Lusa

