Um vídeo do pregador islâmico Uthman ibn Farooq voltou a gerar polémica ao apresentar o crescimento do Islão nos Estados Unidos num tom que muitos consideram triunfalista: “Ninguém pode impedir o Islão na América”.
Além disso, numa intervenção anterior no Reino Unido, Farooq chegou a prever uma Europa, uma América e uma Rússia muçulmanas. Perante estas declarações, surge uma questão inevitável: até onde deve uma democracia tolerar discursos que usam a própria liberdade democrática para anunciar a futura supremacia de uma religião?
Quem é Uthman ibn Farooq?
Uthman ibn Farooq é um influente pregador islâmico paquistanês-americano, radicado em San Diego e ligado à One Message Foundation. Ao longo dos últimos anos, ganhou projeção internacional através de debates e ações de divulgação do Islão.
Contudo, algumas das suas declarações sobre o futuro islâmico da Europa e dos Estados Unidos provocaram forte controvérsia. Em 2025, as autoridades britânicas chegaram mesmo a impedir a sua entrada no Reino Unido.
Assim, Farooq tornou-se uma figura central num debate cada vez mais sensível: onde termina a liberdade religiosa e onde começa um discurso de supremacia religiosa?
“A América será um país muçulmano”
Numa intervenção realizada em Birmingham, no Reino Unido, Farooq foi ainda mais longe.
Ao falar sobre o futuro do Islão no Ocidente, afirmou que “o futuro é nosso” e previu que os Estados Unidos, a Europa e a Rússia se tornariam sociedades ou países muçulmanos. Posteriormente, várias plataformas divulgaram e transcreveram publicamente essa intervenção. Declarações de Uthman ibn Farooq
Além disso, a imprensa britânica recuperou estas declarações quando surgiu a polémica em torno das suas visitas ao Reino Unido.
É precisamente neste ponto que a discussão ultrapassa a dimensão puramente religiosa.
Qualquer pessoa tem o direito de tentar convencer os outros da sua fé ou das suas ideias. Um cristão pode evangelizar, um muçulmano pode fazer dawah e um ateu pode defender que as religiões acabarão por desaparecer.
Isso faz parte da liberdade de expressão. Liberdade de expressão — Constituição dos EUA
Contudo, o debate muda quando alguém passa de “quero convencer-te da minha fé” para mensagens como “o futuro é nosso”, “o vosso país será nosso” ou “todos acabarão por pertencer à nossa religião”. Nesse momento, a sociedade também tem o direito — e talvez o dever — de questionar o significado e as intenções desse discurso.
A diferença é clara:
“Quero convencer-te da minha fé” representa proselitismo religioso.
“O teu país acabará por pertencer à minha fé” já transmite uma ideia de domínio coletivo e merece um escrutínio muito mais exigente.
Por isso, uma democracia deve proteger a liberdade religiosa sem abdicar do direito de analisar criticamente discursos que apresentem o futuro de uma sociedade como propriedade de uma única religião.
A primeira frase pertence ao debate religioso. A segunda entra inevitavelmente no terreno político, cultural e civilizacional e é quanto a mim, inaceitável.

O paradoxo das democracias ocidentais
Europa e Estados Unidos construíram sociedades livres precisamente porque recusaram entregar o poder político a uma religião.
Durante décadas, separaram progressivamente o Estado das instituições religiosas, protegeram o pluralismo e garantiram a cada cidadão o direito de acreditar, não acreditar, mudar de fé ou criticar qualquer religião.
Contudo, essas mesmas democracias parecem agora hesitar quando determinados discursos religiosos deixam de pedir liberdade para si e começam a anunciar domínio sobre os outros.
A pergunta torna-se inevitável: até onde deve uma democracia tolerar quem usa a liberdade para defender um futuro em que essa mesma liberdade poderá valer menos?
A resposta não passa por perseguir muçulmanos, cristãos ou qualquer outra comunidade religiosa. Mas também não pode passar pelo silêncio cobarde perante discursos de supremacia religiosa.
Criticar ideias não significa atacar pessoas.
Questionar o islamismo político não significa atacar os muçulmanos. Da mesma forma, denunciar fundamentalismo cristão não significa atacar todos os cristãos.
Além disso, transformar qualquer crítica ao radicalismo religioso numa acusação automática de intolerância apenas empobrece o debate e protege precisamente as ideias que uma sociedade livre deveria poder questionar.
E SE INVERTÊSSEMOS AS RELIGIÕES?
Façamos um teste simples.
Imagine-se um conhecido pregador cristão a entrar num país de maioria muçulmana e a declarar perante uma multidão:
“Ninguém conseguirá impedir o Cristianismo neste país. Este país será cristão. O futuro é nosso.”
A reação seria provavelmente explosiva.
Muitos falariam imediatamente de provocação, imperialismo cultural, proselitismo agressivo e desrespeito pela identidade daquela sociedade.
Então, por que motivo uma democracia ocidental deveria abandonar o mesmo espírito crítico quando o discurso vem de um pregador islâmico?
Se a regra muda conforme a religião de quem fala, já não estamos perante tolerância.
Estamos perante dois pesos e duas medidas.
Por isso, a igualdade exige uma regra simples: nenhuma religião está acima da crítica e nenhuma ideologia merece imunidade apenas porque alguém teme ser acusado de intolerância.
Uma democracia que perde a coragem de defender o pluralismo, a igualdade perante a lei e a separação entre religião e poder político começa, pouco a pouco, a enfraquecer os próprios princípios que a tornaram livre.

O problema não são os muçulmanos. É a supremacia, venha ela de onde vier
Quero deixar isto absolutamente claro pois para mim é importante…
Milhões de muçulmanos vivem nas democracias ocidentais, trabalham, estudam, criam famílias e respeitam plenamente as leis e instituições dos países onde vivem. Não podem nem devem ser responsabilizados pelas palavras deste pregador. Muçulmanos nos Estados Unidos — Pew Research Center
Transformar as declarações de Uthman ibn Farooq numa acusação coletiva contra todos os muçulmanos seria injusto e intelectualmente desonesto. Mas utilizar o medo de generalizações para impedir qualquer discussão sobre discursos islamistas também seria um erro.
Para mim, o princípio deve ser universal:
Nem supremacia islâmica, nem supremacia cristã, nem supremacia de qualquer outra religião.
Numa democracia, a religião pertence à liberdade individual e coletiva dos cidadãos.
O Estado, porém, pertence a todos.
Uma sociedade tolerante não tem de ser uma sociedade ingénua
Uthman ibn Farooq tem direito às suas crenças. Os muçulmanos têm direito a praticar livremente a sua religião, tal como cristãos, judeus, hindus, ateus ou qualquer outro cidadão.
Contudo, liberdade religiosa não significa direito à supremacia religiosa.
Quando alguém apresenta o futuro de um país como a vitória de uma religião sobre todas as outras, a democracia não deve baixar os olhos nem fingir que nada se passa.
Além disso, tolerar uma fé não obriga ninguém a aceitar discursos de domínio religioso. A liberdade tem limites!
O Ocidente não precisa de abandonar os seus princípios para responder a quem os questiona. Precisa de os defender com ainda mais firmeza: leis iguais para todos, liberdade para todos e nenhuma religião acima das restantes.
A mensagem deve ser simples e inequívoca: numa democracia, nenhuma religião manda no país.
O país não pertence a uma fé. Pertence aos seus cidadãos.
E isso também não pode ser impedido por ninguém.
Sentinela Lusa

