Quando pensamos na expansão portuguesa, lembramo-nos do Brasil, de Angola, de Goa ou de Macau. No entanto, existe uma cidade muito mais próxima de Portugal que ocupa um lugar decisivo na nossa História: Ceuta. Importa recordar que Ceuta foi portuguesa e esse facto marcou profundamente a nossa história.
Situada no Norte de África, diante do Estreito de Gibraltar, Ceuta pertence hoje a Espanha. Porém, Portugal conquistou a cidade em 1415 e governou-a durante mais de dois séculos.
Mais surpreendente ainda: quando Portugal recuperou a independência em 1640, Ceuta não acompanhou o resto do reino.
Porque ficou então espanhola? Não nos esqueçamos que Ceuta foi outrora portuguesa.
1415: Portugal conquista Ceuta
A história portuguesa de Ceuta começa em 21 de agosto de 1415. D. João I liderou uma grande expedição e conquistou a cidade, tornando Ceuta durante séculos um domínio português. Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Portugal tinha razões estratégicas para avançar. Ceuta encontrava-se junto ao Estreito de Gibraltar, entre o Mediterrâneo e o Atlântico, e ocupava uma posição importante nas rotas comerciais do Norte de África. Além disso, a conquista permitiu a Portugal projetar o seu poder para fora da Península Ibérica.
Por isso, Ceuta tornou-se um dos primeiros grandes símbolos da expansão portuguesa.
Depois da conquista, Portugal manteve a cidade e defendeu-a durante gerações. Contudo, conservar Ceuta não era fácil. A cidade exigia homens, dinheiro e abastecimentos constantes. Ainda assim, permaneceu portuguesa durante mais de 200 anos, reforçando o facto de que Ceuta foi portuguesa durante um longo período.
A União Ibérica mudou o equilíbrio
Em 1580, Filipe II de Espanha tornou-se também rei de Portugal. Começou assim a União Ibérica, período em que os dois reinos partilharam o mesmo monarca.
Ceuta continuou formalmente ligada a Portugal. Contudo, a sua posição geográfica aproximava-a cada vez mais de Espanha, sobretudo da Andaluzia. Essa dependência teria consequências e acabaria por influenciar o destino de Ceuta, que foi portuguesa durante tantos anos.
A cidade precisava dos portos espanhóis para receber abastecimentos e manter ligações com a Península. Assim, os interesses locais começaram gradualmente a afastar-se de Lisboa.
Então chegou 1640.
Portugal recupera a independência. Ceuta fica para trás
No dia 1 de dezembro de 1640, Portugal revoltou-se contra a monarquia filipina. D. João IV assumiu o trono e iniciou-se a Guerra da Restauração. Grande parte dos territórios portugueses reconheceu a nova dinastia, mas, surpreendentemente, Ceuta foi portuguesa mas recusou-se a seguir o mesmo caminho do Reino.
Ceuta, porém, não o fez. A cidade decidiu manter-se fiel a Filipe IV de Espanha. Importância estratégica de Ceuta.
Este é um dos episódios mais curiosos da História portuguesa. Uma cidade conquistada por Portugal em 1415 e administrada durante gerações recusava agora acompanhar o reino na recuperação da independência. A razão foi sobretudo prática.
Ceuta estava geograficamente próxima de Espanha e dependia fortemente da Andaluzia. Romper com Madrid poderia significar problemas de segurança, abastecimento e sobrevivência, o que mostrou o quão complexo foi o processo para a cidade que antes foi portuguesa.
Neste caso, a geografia falou mais alto do que a História.

1668: Portugal aceita a perda
Portugal e Espanha combateram durante quase três décadas. Finalmente, em 1668, assinaram o Tratado de Lisboa.
Espanha reconheceu oficialmente a independência portuguesa. No entanto, Ceuta ficou de fora do acordo, finalizando o capítulo em que Ceuta foi considerada portuguesa.
Portugal aceitou que a cidade permanecesse sob soberania espanhola.
Terminava assim, juridicamente, uma ligação que tinha começado em 1415, e que deixou marcado para a história o facto de Ceuta ter sido portuguesa.
A marca portuguesa continua visível
Apesar de séculos de domínio espanhol, Portugal não desapareceu completamente de Ceuta. Vale lembrar que Ceuta foi portuguesa, facto que ainda se sente na cultura local.
A bandeira da cidade conserva o padrão preto e branco associado a Lisboa e o brasão mantém uma forte inspiração portuguesa. Além disso, vários vestígios históricos recordam a longa presença lusitana.
Hoje, Ceuta continua a ser um território espanhol no Norte de África e a sua soberania é contestada por Marrocos. Esta cidade, que foi portuguesa, possui uma identidade única. Fronteiras da Europa.
Contudo, antes das atuais disputas entre Madrid e Rabat, existe uma parte da história que muitas vezes esquecemos.
Ceuta foi portuguesa durante mais de dois séculos. Foi uma das primeiras portas da expansão portuguesa e permaneceu ligada à nossa Coroa até ao século XVII.
Portugal perdeu a cidade politicamente.
Mas a História deixou lá a sua assinatura… basta olhar para a bandeira de Ceuta!
Fontes:
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa — NOVA FCSH
Ciudad Autónoma de Ceuta
Sentinela Lusa

