O Governo fala frequentemente de crescimento económico, aumento dos salários e melhoria das condições de vida. No entanto, existe uma realidade muito menos confortável: quase três em cada quatro pensionistas de velhice da Segurança Social recebiam, em 2025, menos do que o salário mínimo nacional.
Os números são claros. Segundo dados do Instituto da Segurança Social divulgados pela Pordata, 1.608.380 pensionistas de velhice recebiam menos de 870 euros mensais, valor correspondente ao salário mínimo nacional em 2025. No total das pensões de velhice e invalidez, eram 1.749.469 pessoas abaixo desse patamar. Dados Pordata.
É um número que merece reflexão.
Trabalhar uma vida para receber quanto?
Uma pensão não é um salário. Resulta das contribuições efetuadas ao longo da carreira, das remunerações declaradas, do número de anos de descontos e das regras utilizadas para calcular a reforma. Ainda assim, a comparação com o salário mínimo ajuda a perceber a dimensão do problema.
Milhares de portugueses trabalharam durante décadas, pagaram impostos e descontaram para a Segurança Social. Quando chegam à reforma, muitos ficam dependentes de rendimentos bastante reduzidos. E as despesas não desaparecem quando alguém deixa de trabalhar.
Continuam a existir contas de eletricidade, água, alimentação, habitação e transportes. Além disso, com o avançar da idade, podem aumentar os gastos relacionados com saúde, medicamentos ou apoio domiciliário. Custo da habitação.
Por isso, discutir pensões não é apenas discutir números do Orçamento do Estado. É discutir as condições de vida de uma parte significativa da população portuguesa.
As pensões mais baixas continuam muito baixas
Outro estudo ajuda a perceber melhor esta realidade. Uma análise do Banco de Portugal sobre os pensionistas de velhice concluiu que, em 2024, metade dos pensionistas do regime geral da Segurança Social recebia menos de 462 euros mensais, enquanto a pensão média rondava os 645 euros.
O mesmo estudo mostrou ainda fortes diferenças entre pensionistas. Cerca de 40% recebiam pensões mínimas e as mulheres apresentavam, em média, pensões significativamente inferiores às dos homens, consequência também de carreiras contributivas mais fragmentadas e salários historicamente mais baixos.
Não estamos, portanto, perante alguns casos isolados. Estamos perante uma característica estrutural do sistema português de pensões.
Aumentar pensões também tem um custo
Seria fácil concluir que o Estado deve simplesmente aumentar todas as pensões para valores próximos do salário mínimo.
Mas a questão é bastante mais complexa. A Europa envelhece.
Portugal tem uma população cada vez mais envelhecida. A Pordata coloca atualmente o país entre os mais envelhecidos da União Europeia, com cerca de 189 idosos por cada 100 jovens.
Isso significa mais pensionistas e, proporcionalmente, uma pressão crescente sobre quem trabalha e financia o sistema através das contribuições.
Portanto, Portugal enfrenta duas necessidades aparentemente contraditórias: garantir pensões dignas a quem trabalhou durante décadas e, simultaneamente, assegurar que a Segurança Social continua financeiramente sustentável para as próximas gerações.
Ignorar qualquer uma delas seria irresponsável.

Em 2026, o salário mínimo já é de 920 euros
Há ainda um detalhe importante. Os dados divulgados agora dizem respeito a 2025, quando o salário mínimo nacional era de 870 euros.
Desde 1 de janeiro de 2026, o salário mínimo no continente passou para 920 euros mensais.
Isto não permite afirmar automaticamente que três em cada quatro pensionistas recebem hoje menos de 920 euros, porque as pensões também foram atualizadas. Mas mostra como o debate entre salários e pensões continuará inevitavelmente nos próximos anos.
Que reforma queremos deixar aos portugueses?
A discussão não deve limitar-se a prometer aumentos antes das eleições ou a distribuir suplementos extraordinários quando existem condições orçamentais.
Portugal precisa de discutir seriamente como criar salários mais elevados, carreiras contributivas mais sólidas, maior produtividade e uma economia capaz de financiar pensões dignas no futuro.
Porque existe uma pergunta que qualquer trabalhador tem legitimidade para fazer:
Depois de 30, 40 ou 45 anos de trabalho e descontos, que nível de vida me espera quando chegar à reforma?
Quando quase três em cada quatro pensionistas de velhice recebem menos do que o salário mínimo usado como referência nesses dados, essa pergunta deixa de ser apenas individual.
Torna-se um problema nacional.
Fontes: Dados de 2025 — Segurança Social/Pordata
Sentinela Lusa

