InícioOpiniãoWokismo: arma ideológica da esquerda moderna

Wokismo: arma ideológica da esquerda moderna

O chamado wokismo nasceu associado a causas que, à partida, dificilmente alguém contestaria: combater o racismo, denunciar discriminações, proteger minorias e promover maior igualdade. O debate sobre wokismo e esquerda tem ganho destaque nos últimos tempos. O problema começa quando a luta contra a intolerância deixa de procurar igualdade perante a lei e passa a dividir permanentemente a sociedade entre vítimas e culpados.

É nesse momento que uma causa aparentemente progressista corre o risco de se transformar numa nova forma de dogmatismo.

Da universidade para toda a sociedade

Grande parte das atuais guerras culturais ganhou força nas universidades, sobretudo no mundo anglo-saxónico. Conceitos originalmente desenvolvidos em áreas académicas passaram progressivamente para o debate político, para os meios de comunicação, para as empresas, para o entretenimento e para as redes sociais.

Com isso surgiu também um novo vocabulário: privilégio, apropriação cultural, identidade de género, microagressões, espaços seguros, linguagem inclusiva ou cultura de cancelamento. O problema não está em discutir estes conceitos. Uma democracia saudável deve discutir tudo.

O problema aparece quando determinadas ideias deixam de poder ser contestadas sem que quem discorda seja imediatamente classificado como intolerante, racista, sexista, transfóbico ou extremista. A liberdade de expressão perde então espaço precisamente em nome da tolerância. A liberdade de expressão.

As universidades devem produzir conhecimento, testar ideias e promover o debate livre. Quando professores ou estudantes evitam certos temas por medo de consequências, a liberdade académica fica comprometida. O verdadeiro pluralismo não depende apenas da diversidade de origens, mas também da diversidade de pensamento.

Podemos julgar o passado com os valores de hoje?

Um dos pontos mais controversos desta discussão encontra-se na forma como atualmente analisamos a História. A escravatura, o colonialismo, as perseguições religiosas e inúmeras outras injustiças devem ser estudados e condenados sempre que necessário.

Mas existe uma diferença fundamental entre conhecer o passado e colocar indivíduos atuais no banco dos réus pelos atos dos seus antepassados. A História humana está repleta de violência, conquistas, escravatura e impérios em praticamente todas as regiões do mundo. Europa, África, Ásia e Médio Oriente tiveram sociedades conquistadoras e conquistadas, opressores e oprimidos.

Reduzir toda essa complexidade a uma narrativa simples — europeus culpados de um lado e restantes povos vítimas do outro — não ajuda a compreender a História. Transforma-a numa arma política.

A culpa não pode ser hereditária

Aqui encontra-se talvez uma das questões mais importantes. Um jovem europeu nascido em 2005 não colonizou África.

Da mesma forma, um jovem africano nascido em 2005 não viveu o colonialismo europeu. Ambos devem conhecer essa História.

Mas nenhum deveria nascer automaticamente com a condição moral de culpado ou vítima devido à cor da pele ou à origem dos seus antepassados.

Essa lógica é particularmente perigosa porque recupera precisamente aquilo que diz combater: julgar indivíduos pela pertença a um grupo. A democracia liberal assenta no princípio contrário.

Cada pessoa deve responder pelos seus próprios atos.

O Ocidente não precisa de escolher entre arrogância e autoflagelação

Existe ainda um paradoxo curioso. Poucas civilizações desenvolveram uma crítica tão profunda sobre os seus próprios erros como as democracias ocidentais.

Foi precisamente no Ocidente que se desenvolveram muitos dos movimentos modernos em defesa dos direitos humanos, da liberdade individual, da igualdade perante a lei e da democracia constitucional.

Isso não apaga os crimes cometidos no passado. Mas também não desaparece da História apenas porque contradiz uma narrativa conveniente.

Podemos reconhecer simultaneamente duas coisas:

O Ocidente cometeu erros gravíssimos e produziu algumas das instituições mais importantes para a proteção da liberdade humana.

Uma realidade não elimina a outra.

A minha opinião sobre o wokismo

Na minha opinião, o wokismo deixou há muito de ser apenas uma corrente destinada a combater injustiças. Transformou-se numa ideologia profundamente divisiva, intolerante e corrosiva para as sociedades ocidentais. Em nome da inclusão, voltou a classificar pessoas pela raça, pelo sexo e pela identidade; em nome da tolerância, procura silenciar quem discorda; em nome da justiça histórica, tenta impor culpas colectivas a pessoas que nada fizeram.

Considero particularmente preocupante a tentativa de reescrever a História à luz das conveniências ideológicas do presente, de relativizar factos científicos quando estes contrariam determinadas narrativas e de transformar universidades, escolas, empresas e instituições públicas em espaços onde algumas opiniões parecem ser aceitáveis e outras praticamente proibidas.

Para mim, este é o maior paradoxo do wokismo: diz combater a discriminação, mas divide novamente as pessoas em grupos; diz defender a diversidade, mas tolera cada vez menos a diversidade de pensamento; diz proteger a liberdade, mas promove o cancelamento de quem ousa discordar.

O paradoxo da diversidade e da liberdade

Também rejeito frontalmente a ideia de uma culpa histórica hereditária. Não aceito que um europeu de hoje deva carregar a culpa pelos crimes cometidos há séculos, da mesma forma que ninguém deve ser considerado vítima apenas pela identidade dos seus antepassados. Devemos conhecer o passado, reconhecer os seus erros e aprender com eles. Mas não podemos transformar a História num tribunal permanente onde algumas civilizações aparecem eternamente como culpadas e outras eternamente como vítimas.

O Ocidente cometeu erros graves. Portugal também. Devemos estudá-los sem medo e sem branqueamentos. Mas reconhecer erros não significa renunciar à nossa História, à nossa identidade ou aos valores que construímos ao longo de séculos.

Vejo, por isso, o wokismo como uma das manifestações mais preocupantes da actual crise cultural do Ocidente. Não porque todas as causas que lhe estão associadas sejam ilegítimas, mas porque o método utilizado por muitos dos seus defensores conduz precisamente ao contrário daquilo que dizem procurar: mais divisão, mais ressentimento, mais tribalismo e menos liberdade de pensamento.

A resposta não pode ser outra forma de censura. Tem de ser liberdade, conhecimento, contraditório e igualdade perante a lei.

Não quero uma sociedade onde alguém tenha medo de dizer aquilo que pensa… uma História reescrita para servir a ideologia esquerda do momento… cidadãos divididos entre culpados e vítimas em função da sua origem. E não aceito que a intolerância passe a ser considerada virtude apenas porque se apresenta embrulhada na linguagem da tolerância.

Para mim, o wokismo não representa progresso de forma alguma. Representa um perigoso regresso ao pensamento tribal, agora vestido com uma linguagem moderna e moralmente superior orquestrada pela esquerda. E quanto mais cedo o Ocidente perceber isso, melhor conseguirá preservar aquilo que realmente merece ser defendido: a liberdade, a razão, o mérito, o pluralismo e a verdade dos factos… sem culpa!

Fontes: Pew Research Center, Knight Foundation/Ipsos

Sentinela Lusa

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