A União Europeia não reconhece oficialmente o regime talibã no Afeganistão. Critica a repressão das mulheres, condena violações dos direitos humanos e recusa dar legitimidade política ao governo instalado em Cabul. No entanto, quando chega o momento de discutir imigração, segurança e deportações de cidadãos afegãos, Bruxelas já aceita sentar-se à mesa com representantes dos talibãs.
E é precisamente aqui que começa o problema.
Bruxelas descobre o realismo político
Em junho de 2026, representantes dos talibãs deslocaram-se a Bruxelas para discutir com responsáveis europeus o regresso de cidadãos afegãos que já não têm direito a permanecer na União Europeia.
Bruxelas apressou-se a explicar que estes contactos não representam qualquer reconhecimento oficial do regime. Formalmente, é verdade. Politicamente, porém, a realidade é muito menos confortável.
A União Europeia pode chamar-lhes “contactos técnicos”, pode escolher cuidadosamente cada palavra diplomática e pode insistir que não reconhece os talibãs. Mas existe um facto impossível de esconder: para resolver determinados problemas europeus, Bruxelas precisa de falar com quem governa efetivamente o Afeganistão.
A diplomacia europeia encontrou finalmente a realidade.
Não reconhecem o regime, mas precisam dele
Durante anos, a Europa construiu uma política externa fortemente baseada em valores, direitos humanos e princípios democráticos.
Esses princípios devem existir. Contudo, os governos europeus também têm responsabilidades perante os seus próprios cidadãos.
Se um cidadão estrangeiro recebe uma ordem definitiva de expulsão, a Europa precisa de conseguir executar essa decisão. Caso contrário, transforma as políticas de imigração numa gigantesca ficção administrativa.
De que serve uma ordem de deportação se ninguém consegue concretizá-la?
De que serve declarar que determinada pessoa não pode permanecer no território europeu se, na prática, essa pessoa continua na Europa porque o país de origem não coopera?
É precisamente este problema que empurra Bruxelas para a mesa de negociações com os talibãs.
A contradição europeia está à vista
A situação expõe mais uma contradição da política europeia. Durante muito tempo, vários responsáveis políticos europeus preferiram discursos moralmente confortáveis a soluções concretas.
Agora descobrem que controlar fronteiras, executar deportações e combater a imigração irregular exige negociar com governos desagradáveis, regimes autoritários e países que não partilham os valores europeus.
A política internacional nunca funcionou apenas com declarações de princípios.
Funciona também com interesses, fronteiras, segurança e relações de poder.
A União Europeia parece começar finalmente a perceber isso.
E os afegãos que não têm direito a ficar?
Este debate exige igualmente uma distinção essencial. A Europa deve proteger quem enfrenta perseguição real e reúne condições para receber proteção internacional.
Mas essa obrigação não significa que qualquer cidadão afegão tenha automaticamente direito a permanecer indefinidamente na Europa.
Quando as autoridades analisam um processo, rejeitam definitivamente o pedido de proteção e determinam legalmente o regresso ao país de origem, o Estado deve conseguir aplicar essa decisão.
Caso contrário, todo o sistema perde credibilidade.
Uma política migratória séria precisa simultaneamente de humanidade para quem necessita de proteção e firmeza para quem não reúne condições legais para permanecer.
Misturar estas duas situações apenas alimenta desconfiança e radicaliza o debate público.

A Europa criou um problema que agora tenta resolver
Durante demasiado tempo, muitos governos europeus anunciaram políticas de retorno que depois executaram apenas parcialmente. Milhares de decisões de expulsão ficam por cumprir em diferentes países europeus.
O resultado tornou-se previsível: cidadãos percebem que existe uma enorme distância entre aquilo que os governos anunciam e aquilo que realmente conseguem fazer. Essa diferença destrói confiança nas instituições.
Agora Bruxelas procura acordos com países de origem para aumentar os regressos.
É uma evolução necessária. Mas também revela anos de falta de estratégia.
Princípios não podem substituir política
A Europa não precisa de reconhecer politicamente os talibãs para dialogar com eles. Mas também não deve fingir que esses encontros não têm importância política.
Quando representantes de um regime entram numa sala para negociar diretamente com instituições europeias, existe inevitavelmente uma forma de reconhecimento da realidade: os talibãs controlam o Afeganistão e qualquer política séria de retorno terá de contar com essa realidade.
É desconfortável? Sem dúvida. Mas governar exige precisamente enfrentar realidades desconfortáveis.
Durante demasiado tempo, Bruxelas tentou transmitir a ideia de que podia construir política externa apenas através de valores e declarações. O mundo real acaba sempre por cobrar a fatura.
A Europa precisa de escolher entre discurso e resultados
A União Europeia enfrenta agora uma escolha muito simples. Pode continuar a produzir discursos politicamente impecáveis enquanto milhares de decisões de retorno permanecem por executar.
Ou pode assumir que proteger as fronteiras externas, combater a imigração irregular e executar decisões judiciais exige pragmatismo diplomático. Falar com os talibãs não significa necessariamente legitimar o regime.
Mas fingir que não existe qualquer contradição também não convence ninguém.
Bruxelas não reconhece oficialmente os talibãs. Porém, quando precisa deles para devolver afegãos, encontra rapidamente uma cadeira à mesa.
É talvez a melhor demonstração de uma verdade que a política europeia tentou ignorar durante demasiado tempo:
Os discursos podem escolher parceiros. A realidade, muitas vezes, não.
Fontes: Reuters, Conselho da União Europeia, Amnesty International
Sentinela Lusa

