InícioMundoCristãos massacrados na Nigéria: uma tragédia esquecida.

Cristãos massacrados na Nigéria: uma tragédia esquecida.

Há lugares no mundo onde entrar numa igreja pode ser um ato de coragem. Em especial, casos de cristãos massacrados na Nigéria são cada vez mais frequentes. Há aldeias onde uma noite tranquila termina em tiros, casas incendiadas e famílias destruídas. Há crianças que crescem a conhecer o medo antes de perceberem por que razão alguém as odeia.

A Nigéria é hoje um desses lugares. Reuters — Charred bodies, shattered lives after gunmen kill 100 in Nigeria

Entretanto, enquanto cristãos são assassinados, padres são raptados e aldeias são atacadas, grande parte do mundo parece ter-se habituado ao horror.

Aldeias transformadas em cemitérios

Em junho de 2025, Yelwata, no estado de Benue, tornou-se símbolo desta tragédia. Homens armados atacaram a comunidade durante a noite e mataram cerca de 150 pessoas. Muitas vítimas morreram queimadas e milhares tiveram de abandonar a região.

Entre os atingidos estavam deslocados que procuravam proteção numa missão católica.

Não estamos a falar apenas de números. Cada vítima tinha um rosto, uma família, uma casa e uma história.

Ainda assim, Yelwata não encerrou a tragédia. Pouco mais de um ano depois, em agosto de 2026, pelo menos 25 pessoas voltaram a ser mortas num ataque no estado de Plateau, uma região marcada por sucessivos episódios de violência.

Quantos massacres são necessários até deixarmos de considerar isto apenas mais uma notícia distante?

Cristãos vivem com medo

A Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional, USCIRF, alerta repetidamente para a gravidade da situação na Nigéria. USCIRF – relatório anual

O organismo identifica ataques de Boko Haram, do Estado Islâmico na África Ocidental, de grupos criminosos e de militantes armados Fulani.

Importa, antes de mais, esclarecer que estes grupos não representam os muçulmanos nigerianos em geral. Aliás, muitas vítimas do terrorismo também são muçulmanas.

No entanto, esconder a dimensão religiosa de parte desta violência seria igualmente desonesto.

Comunidades cristãs são atacadas, igrejas tornam-se alvos, padres são raptados e aldeias maioritariamente cristãs vivem sob ameaça constante. Alguns ataques ocorreram até em períodos como o Natal e a Páscoa.

É difícil imaginar forma mais cruel de espalhar terror: transformar a fé de uma pessoa numa possível sentença de morte.

Quando nem a igreja é um lugar seguro

Em 2022, homens armados atacaram a igreja católica de São Francisco Xavier, em Owo, durante a missa de Pentecostes. Dezenas de pessoas morreram.


Além disso, em fevereiro de 2026, outro ataque atingiu a residência de um padre católico no estado de Kaduna. Como resultado, três elementos das forças de segurança morreram, enquanto os atacantes raptaram o padre Nathaniel Asuwaye juntamente com outras pessoas.

Nenhuma condenação judicial consegue devolver os mortos. E nenhuma promessa política apaga a pergunta essencial:

como pode um Estado permitir que este horror se repita durante anos?

Não é apenas religião — mas a religião também conta

A violência na Nigéria tem causas complexas. Existem disputas pela terra, conflitos entre agricultores e pastores, rivalidades étnicas, pobreza, criminalidade organizada, terrorismo jihadista e fragilidade das instituições.

Mas usar essa complexidade para minimizar a perseguição religiosa seria uma forma de fugir à realidade.

Quando grupos jihadistas assassinam pessoas por causa da sua fé, quando igrejas são atacadas e quando comunidades cristãs têm medo de se reunir para rezar, a religião faz parte do problema.

Reconhecer isso não significa acusar todos os muçulmanos. Significa apenas chamar o extremismo pelo nome.

E o mundo?

Talvez esta seja a pergunta mais incómoda.

Onde estão as grandes manifestações internacionais? a indignação contínua? Onde estão as campanhas que dominam durante semanas televisões, universidades, parlamentos e redes sociais?

Não existe silêncio absoluto. Organizações internacionais denunciam os ataques, líderes religiosos protestam e a imprensa noticia alguns massacres.

Mas a atenção é demasiado frequentemente passageira.

O massacre acontece. Surge uma notícia. Algumas declarações. Depois o mundo segue em frente.

Até ao massacre seguinte.

Nenhuma vida vale menos

Podemos discutir as causas históricas desta violência. Devemos analisar terrorismo, pobreza, etnias, terra e falhas do Estado.

Mas antes de qualquer análise existe uma realidade simples: seres humanos estão a ser assassinados.

Nenhum cristão deveria morrer por entrar numa igreja. Nenhum muçulmano deveria morrer por entrar numa mesquita. Nenhuma criança deveria ser assassinada pela religião da família em que nasceu.

O fanatismo merece condenação, venha de onde vier. O terrorismo deve ser combatido. E a perseguição de seres humanos pela sua fé exige uma resposta internacional firme.

Acima de tudo, existe algo profundamente perturbador numa humanidade que escolhe quais as vítimas pelas quais se indigna.

Por isso, os cristãos mortos na Nigéria não são meras estatísticas. Não são vítimas de segunda categoria. Não valem menos simplesmente porque os seus nomes raramente chegam às nossas televisões.

Consequentemente, enquanto o mundo continuar a olhar para o lado, os assassinos receberão uma mensagem terrível:

Podem continuar…

Fontes: Reuters, USCIRF

Sentinela Lusa

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