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Portugal é um dos países mais pobres da Europa Ocidental

Portugal entrou na Comunidade Económica Europeia em 1986 com uma promessa clara: aproximar-se dos países mais ricos da Europa. Quarenta anos depois, o país modernizou infraestruturas, recebeu milhares de milhões de euros em fundos europeus e melhorou vários indicadores sociais. No entanto, Portugal é um dos países mais pobres da Europa Ocidental, continua longe dos níveis de riqueza das economias mais desenvolvidas da região.

A questão é inevitável: como é possível Portugal continuar relativamente pobre depois de tantas décadas de integração europeia?

A resposta não está num único Governo, numa única crise ou numa única geração política. O problema resulta de décadas de decisões erradas, reformas adiadas e políticas económicas incapazes de alterar profundamente o modelo produtivo português.

Portugal produz pouco valor

O principal problema está na produtividade.

Portugal continua a produzir menos riqueza por hora trabalhada do que grande parte dos países europeus. Portanto, o problema não é simplesmente os portugueses trabalharem pouco. Pelo contrário, muitos trabalham longas horas, mas inseridos numa economia baseada em atividades de baixo valor acrescentado.

Turismo, restauração, construção, comércio e serviços são importantes. Contudo, um país não consegue enriquecer apenas com setores onde a concorrência depende sobretudo de preços baixos e salários reduzidos.

Durante décadas, sucessivos governos aceitaram um modelo económico baseado em mão de obra barata.

E esse modelo tem consequências. Eurostat — PIB per capita e poder de compra.

Se uma empresa produz pouco valor por trabalhador, dificilmente consegue pagar salários elevados. Assim, os salários permanecem baixos, o consumo interno continua limitado e muitos trabalhadores qualificados procuram oportunidades no estrangeiro.

Portugal investe na formação de jovens. Depois, países como Suíça, Luxemburgo, Alemanha, França ou Países Baixos aproveitam essas competências.

PS e PSD governaram décadas sem resolver o problema

Desde a consolidação da democracia, PS e PSD dominaram praticamente toda a governação portuguesa, sozinhos ou em coligação.

Os primeiros-ministros mudaram. Os ministros das Finanças também. Contudo, os problemas estruturais permanecem surpreendentemente semelhantes.

Baixa produtividade, salários baixos, burocracia, justiça lenta, dependência excessiva do Estado, dificuldades no investimento e empresas demasiado pequenas continuam presentes no debate político. Justiça lenta.

É difícil, por isso, aceitar a ideia de que Portugal simplesmente teve azar.

Após décadas no poder, os partidos que governaram o país têm responsabilidade direta pela situação atual.

As crises internacionais explicam alguns períodos de dificuldade. Porém, não explicam quarenta anos de atraso relativo.

Um Estado caro e burocrático

Portugal também sofre com um Estado pesado, complexo e frequentemente pouco eficiente.

Os portugueses pagam impostos sobre rendimentos, consumo, combustíveis, habitação, automóveis e inúmeras outras atividades.

Pagar impostos não é necessariamente negativo. Países europeus mais ricos apresentam cargas fiscais elevadas.

A verdadeira pergunta é: o cidadão português recebe serviços públicos proporcionais ao esforço fiscal que suporta?

Quando existem dificuldades de acesso ao SNS, atrasos nos tribunais, burocracia empresarial, problemas na habitação e serviços públicos sobrecarregados, essa questão torna-se legítima.

Além disso, as empresas enfrentam legislação complexa, alterações fiscais frequentes, licenças demoradas e processos administrativos que consomem tempo e dinheiro.

Enquanto outros países facilitam a criação de riqueza, Portugal parece demasiadas vezes criar obstáculos a quem pretende investir.

Milhares de milhões da Europa não foram suficientes

Desde 1986, Portugal recebeu enormes volumes de fundos europeus.

Esse dinheiro transformou o país. Foram construídas estradas, escolas, hospitais, redes de saneamento e outras infraestruturas fundamentais.

Contudo, existe uma realidade desconfortável: depois de décadas de fundos comunitários, Portugal continua abaixo da média europeia em produtividade e rendimento.

Isto demonstra que dinheiro, sozinho, não resolve problemas estruturais.

Podemos construir infraestruturas modernas, mas se mantivermos uma administração lenta, empresas pouco capitalizadas, justiça demorada e um sistema fiscal complexo, a economia continuará limitada.

O PRR representa agora mais uma oportunidade histórica.

Mas Portugal já teve várias “oportunidades históricas”.

O verdadeiro desafio é não desperdiçar mais uma.

Falta estratégia de longo prazo

Outro problema português é a ausência de continuidade.

Cada Governo apresenta novas reformas, programas, organismos e prioridades. Depois chega outro Governo e altera novamente as regras.

Empresas e investidores precisam precisamente do contrário: estabilidade, previsibilidade e confiança.

Portugal deveria definir objetivos nacionais para 10 ou 20 anos em áreas como energia, educação, inovação, indústria, tecnologia, justiça e fiscalidade.

Porém, a política portuguesa continua frequentemente concentrada no próximo ciclo eleitoral.

Portugal precisa primeiro de criar riqueza

Grande parte do debate político português gira em torno da distribuição de dinheiro: pensões, subsídios, apoios, salários públicos e benefícios fiscais.

Tudo isso é importante.

Mas antes de distribuir riqueza é necessário produzi-la.

Portugal precisa de empresas maiores, melhores salários, mais investimento, tecnologia, indústria competitiva, inovação e trabalhadores altamente qualificados.

Precisa também de premiar quem trabalha, investe e assume riscos.

Depois de quatro décadas na União Europeia, já não é suficiente culpar Bruxelas, crises externas ou circunstâncias internacionais.

Os sucessivos governos portugueses também têm de assumir responsabilidades.

Portugal não é relativamente pobre porque os portugueses sejam incapazes. Continua relativamente pobre porque durante demasiado tempo o país foi mal governado, reformou pouco e contentou-se com crescer devagar.

E enquanto essa mentalidade não mudar, continuaremos a ouvir a mesma promessa eleitoral:

“Agora é que Portugal vai finalmente convergir com a Europa.” Tenho as minhas dúvidas…

Fontes: Eurostat, OCDE, INE

Sentinela Lusa

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