Hoje, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte parecem pertencer a mundos completamente diferentes. A primeira tornou-se uma democracia industrializada, conhecida pelas suas empresas tecnológicas e pela crescente influência cultural. A segunda permanece um dos regimes mais fechados do planeta. No entanto, durante séculos existiu apenas uma Coreia. Então, apesar dessa história, muitos perguntam porque existem atualmente duas Coreias.
A resposta começa no final da Segunda Guerra Mundial. Durante 35 anos, entre 1910 e 1945, a Península Coreana esteve sob domínio japonês. Quando o Japão se rendeu aos Aliados, em agosto de 1945, terminou também a ocupação colonial da Coreia. Porém, a libertação não trouxe imediatamente a independência desejada pelos coreanos.
Uma divisão que deveria ser temporária
Com o Japão derrotado, Estados Unidos e União Soviética dividiram temporariamente a Península Coreana para organizar a rendição das tropas japonesas. Este foi um dos acontecimentos-chave na explicação sobre porque existem duas Coreias hoje.
O paralelo 38 passou então a separar as duas zonas de ocupação. As forças soviéticas ficaram responsáveis pelo Norte, enquanto os americanos assumiram o controlo do Sul. Origem do paralelo 38.
Inicialmente, esta linha não deveria transformar-se numa fronteira permanente. Documentos diplomáticos norte-americanos da época mostram que a divisão surgiu como uma solução militar temporária para receber a rendição japonesa e desarmar as forças inimigas.
Contudo, rapidamente surgiu um problema muito maior: Washington e Moscovo tinham projetos políticos incompatíveis para o futuro da Coreia.
Entretanto, a Guerra Fria começava a dividir o mundo. A União Soviética apoiava forças comunistas, enquanto os Estados Unidos procuravam conter a expansão do comunismo. Assim, a Coreia transformou-se num dos primeiros territórios onde essa rivalidade ganhou forma concreta e porque existem duas Coreias tornou-se uma questão central do período.
Dois governos para uma só Coreia
As negociações entre americanos e soviéticos para criar um governo coreano unificado falharam. Além disso, não foi possível realizar eleições supervisionadas pelas Nações Unidas em toda a península. Deste modo, a explicação de porque existem duas Coreias está ligada ao insucesso dessas negociações.
Consequentemente, em 1948 nasceram dois Estados rivais.
A 15 de agosto de 1948 foi formalmente inaugurada, no Sul, a República da Coreia, liderada por Syngman Rhee. Poucas semanas depois, a 9 de setembro, surgiu no Norte a República Popular Democrática da Coreia, liderada por Kim Il-sung.
Apesar da separação, ambos os governos reclamavam legitimidade sobre toda a Península Coreana. Portanto, a criação de dois Estados não resolveu o problema político. Pelo contrário, tornou a situação ainda mais perigosa.

A Guerra da Coreia consolidou a divisão
A tensão acabou por transformar-se em guerra.
A 25 de junho de 1950, a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul. O regime de Kim Il-sung procurava reunificar a península sob o seu controlo.
O conflito rapidamente deixou de envolver apenas os coreanos.
Os Estados Unidos lideraram uma força internacional autorizada pelas Nações Unidas para apoiar a Coreia do Sul. Por outro lado, a China entrou diretamente na guerra ao lado da Coreia do Norte. A União Soviética também apoiou Pyongyang no contexto mais amplo da Guerra Fria.
Durante três anos, as forças avançaram e recuaram através da península. Cidades foram destruídas, populações ficaram deslocadas e a guerra provocou uma enorme devastação humana e material. Este conflito é um dos grandes motivos porque existem duas Coreias até hoje.
Finalmente, a 27 de julho de 1953, foi assinado um armistício.
No entanto, há um detalhe fundamental: o armistício não foi um tratado de paz. O mundo nunca gastou tanto em armas.
O acordo interrompeu os grandes combates e criou a Zona Desmilitarizada, ou DMZ, que continua a separar as duas Coreias.
Uma nação, dois caminhos completamente diferentes
Depois da guerra, os dois países seguiram modelos opostos. O facto de porque existem duas Coreias é justamente consequência destes caminhos distintos.
A Coreia do Sul aproximou-se dos Estados Unidos e desenvolveu progressivamente uma economia de mercado. Embora tenha atravessado décadas de regimes autoritários, acabou por consolidar uma democracia e tornou-se numa das grandes economias industrializadas da Ásia.
Já a Coreia do Norte seguiu um sistema comunista fortemente centralizado. A família Kim consolidou progressivamente o poder e construiu um regime marcado pelo controlo político, militarização e isolamento.
Por isso, ao longo das décadas, as diferenças entre as duas Coreias tornaram-se enormes. Uma população com língua, história e raízes culturais comuns passou a viver sob sistemas políticos, económicos e sociais profundamente diferentes.
As duas Coreias continuam tecnicamente em guerra?
Em termos formais, a Guerra da Coreia nunca terminou através de um tratado de paz. O acordo de 1953 apenas estabeleceu um cessar-fogo. Por essa razão, a questão da paz definitiva na Península Coreana continua por resolver e isso ajuda a perceber porque existem, até hoje, duas Coreias.
A existência de duas Coreias resulta, portanto, de vários acontecimentos ligados entre si: o fim da ocupação japonesa, a Segunda Guerra Mundial, a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética e, finalmente, a Guerra da Coreia.
O mais curioso é que tudo começou com uma divisão que deveria ser provisória.
Mais de 80 anos depois da divisão de 1945, essa fronteira continua a existir. Uma linha criada para resolver temporariamente um problema militar acabou por mudar para sempre o destino da Península Coreana e de milhões de pessoas, ajudando a explicar porque existem duas Coreias ainda no século XXI.
Fontes: U.S. Department of State – Office of the Historian; U.S. National Archives; United Nations Peacemaker; United Nations Command.
Sentinela Lusa

