Portugal passou décadas a discutir reformas educativas, programas, metas, competências, tecnologias e novos modelos de avaliação. No entanto, os resultados mais recentes deixam uma pergunta incómoda: depois de tantas mudanças, estará o ensino português realmente melhor? Os dados mostram que, nos últimos anos, alunos portugueses ficaram piores a Matemática e Leitura em comparação com avaliações anteriores.
Os dados do PISA mostram um cenário que merece atenção. Em 2022, os alunos portugueses obtiveram 472 pontos a Matemática, 477 a Leitura e 484 a Ciências. A própria OCDE assinalou que os resultados portugueses caíram face a 2018 em Matemática e Leitura. OCDE PISA
Mais preocupante ainda é a comparação histórica. Em Leitura, Portugal tinha registado 470 pontos em 2000, subiu até aos 498 em 2015, mas caiu para 477 em 2022. Em Matemática, passou de 466 pontos em 2003 para 492 em 2015 e 2018, antes de recuar para 472 em 2022.
Portanto, não estamos perante uma simples história de progresso contínuo.
Portugal melhorou e depois voltou para trás
É importante ser rigoroso. Dizer simplesmente que Portugal está “pior do que há 20 anos” pode ser enganador dependendo da disciplina e do ano usado na comparação.
Na Leitura, por exemplo, os 477 pontos de 2022 ainda ficam ligeiramente acima dos 470 registados em 2000. Porém, Portugal perdeu grande parte dos ganhos conquistados nas décadas seguintes. Na Matemática, os 472 pontos de 2022 estão apenas seis pontos acima dos 466 registados em 2003.
O problema, portanto, talvez seja ainda mais sério: Portugal conseguiu melhorar, mostrou que era possível melhorar e depois começou novamente a recuar.
Entre 2018 e 2022, a queda não aconteceu apenas em Portugal. A OCDE registou uma descida histórica em vários países, especialmente depois da pandemia: em média, Matemática caiu 15 pontos e Leitura 10 pontos. OCDE PISA
Todavia, atribuir tudo à Covid-19 seria demasiado fácil.
Os próprios dados mostram problemas mais profundos na aprendizagem.
Quase um em cada três alunos não atinge o nível mínimo a Matemática
Em Portugal, apenas 70% dos alunos de 15 anos atingiram pelo menos o nível 2 de Matemática no PISA 2022. Isso significa, inversamente, que cerca de 30% ficaram abaixo desse patamar básico de proficiência.
Além disso, apenas 7% dos estudantes portugueses ficaram entre os melhores desempenhos em Matemática, contra 9% na média da OCDE.
Em Leitura, 77% atingiram pelo menos o nível 2, mas somente 5% chegaram aos níveis mais elevados, contra 7% na média da OCDE.
Portugal continua, assim, próximo da média internacional. Mas talvez seja precisamente aí que esteja o problema.
Queremos simplesmente estar na média ou queremos formar uma geração verdadeiramente preparada?

Menos exigência produz melhores alunos?
Durante anos, Portugal discutiu retenções, exames, avaliações, cargas curriculares e sucesso escolar. Contudo, aumentar taxas de aprovação não significa necessariamente aumentar conhecimentos.
Um sistema educativo pode apresentar melhores estatísticas administrativas e, ao mesmo tempo, produzir alunos com maiores dificuldades em interpretar textos, resolver problemas ou raciocinar autonomamente.
É aqui que surge uma questão essencial: estaremos a confundir sucesso escolar com aprendizagem real?
O problema não se resolve tornando os exames mais fáceis, diminuindo a exigência ou escondendo dificuldades através de estatísticas.
Uma escola deve incluir e apoiar quem tem dificuldades. Porém, deve igualmente exigir trabalho, disciplina, conhecimento e capacidade de raciocínio.
Sem isso, o diploma perde valor.
Agora chegou a Inteligência Artificial
Como se este desafio já não fosse suficientemente complexo, apareceu uma nova variável: a inteligência artificial.
Dados recentes divulgados no âmbito do PISA 2025 indicam que 48% dos alunos portugueses de 15 anos utilizam chatbots de IA em atividades relacionadas com a aprendizagem.
Outro estudo português, da rede EU Kids Online, encontrou uma utilização ainda mais disseminada. Entre crianças e jovens dos 9 aos 17 anos, 85% já utilizam inteligência artificial generativa e 47% dizem recorrer a estas ferramentas para tarefas escolares. Entre os jovens dos 15 aos 17 anos, a percentagem sobe para 63%.
A IA não é necessariamente inimiga da educação.
Bem utilizada, pode explicar conceitos, criar exercícios, corrigir textos ou funcionar como tutor individual.
O problema aparece quando deixa de ser uma ferramenta para pensar melhor e passa a ser uma ferramenta para evitar pensar.
Se um aluno entrega à inteligência artificial o raciocínio, a interpretação, a redação e até a procura da resposta, pode terminar o trabalho mais rapidamente. Mas isso não significa que tenha aprendido.
O verdadeiro desafio não é proibir a tecnologia
Proibir simplesmente a IA seria provavelmente inútil.
O desafio é ensinar os alunos a utilizá-la sem perder aquilo que nenhuma tecnologia deve substituir: capacidade crítica, autonomia intelectual, esforço e conhecimento.
Aliás, o próprio diagnóstico nacional sobre IA no ensino superior defende uma integração responsável que preserve o julgamento humano, a autoria e a confiança académica.
Portugal precisa da mesma discussão desde os primeiros anos de escolaridade.
Porque um aluno que sabe utilizar inteligência artificial mas não sabe distinguir uma resposta correta de uma resposta errada não domina verdadeiramente a tecnologia.
É dominado por ela.
O ensino português precisa novamente de exigir
Portugal não precisa de regressar nostalgicamente à escola de há 50 anos. Precisa, isso sim, de recuperar algo que nunca deveria ter perdido: a ideia de que aprender exige esforço.
Tecnologia, inclusão e inovação são importantes. Porém, não substituem bons professores, programas sólidos, disciplina na sala de aula, leitura, cálculo, memória, escrita e pensamento crítico.
Os dados do PISA devem servir como alerta.
Portugal já demonstrou que consegue melhorar os seus resultados. Agora precisa de perceber porque voltou a perder terreno.
A pergunta que deveria preocupar Governo, escolas e famílias não é apenas quantos alunos passam de ano.
É muito mais simples:
Quando terminam a escola, o que sabem realmente fazer sozinhos?
Fontes: OCDE, EU Kids online
Sentinela Lusa

