Livros escritos há décadas estão a ser modificados para se adaptarem às sensibilidades contemporâneas. Em nome da inclusão e da proteção contra conteúdos considerados ofensivos, palavras desaparecem, descrições mudam e algumas passagens são reescritas. Para mim, esta tendência representa um dos aspetos mais preocupantes da cultura woke: a tentativa de julgar e corrigir o passado com os critérios morais do presente.
A sociedade evolui. Os valores mudam. Felizmente, muitas ideias que eram socialmente aceitáveis há cem anos são hoje rejeitadas. No entanto, reconhecer essa evolução não significa que tenhamos de modificar as obras que testemunham precisamente esse passado.
Pelo contrário: precisamos delas intactas para perceber de onde viemos.
Roald Dahl: quando as palavras deixam de pertencer ao autor
O caso de Roald Dahl tornou-se um dos exemplos mais conhecidos desta polémica.
Em 2023, tornou-se público que novas edições britânicas das suas obras tinham sofrido numerosas alterações. Termos relacionados com peso, género, aparência ou saúde mental foram modificados ou eliminados. Por exemplo, os Oompa-Loompas de Charlie and the Chocolate Factory deixaram de ser descritos como “small men” e passaram a “small people”.
A reação foi tão intensa que a própria Penguin/Puffin anunciou posteriormente uma coleção com os textos clássicos de Dahl, permitindo aos leitores escolher entre as versões revistas e os textos originais.
Este compromisso é revelador: se existe procura pelo texto original, por que razão substituir as palavras do escritor?
Contextualizar uma obra é legítimo. Reescrevê-la é algo completamente diferente.
Depois de Dahl, Agatha Christie e James Bond
O fenómeno não ficou por Roald Dahl.
Algumas novas edições de romances de Agatha Christie também sofreram alterações ou supressões de referências consideradas ofensivas, nomeadamente relacionadas com etnia. As modificações envolveram obras de Hercule Poirot e Miss Marple e recorreram a sensitivity readers.
Também os romances de James Bond, de Ian Fleming, passaram por revisões.
Neste caso, contudo, existe uma nuance importante: a https://ianfleming.com/statement-new-editions/? e recordou que o próprio Fleming já tinha aprovado modificações para a edição americana de Live and Let Die nos anos 1950. A entidade decidiu posteriormente aplicar alterações limitadas a determinadas expressões raciais, mantendo alguns livros completamente inalterados.
Portanto, os casos não são todos iguais.
Ainda assim, deixam uma pergunta fundamental: até onde deve ir o poder de um editor para modificar as palavras de um escritor depois da sua morte?
O problema da cultura woke aplicada à literatura
É aqui que considero que certa lógica woke entra num terreno perigoso.
Hoje elimina-se uma palavra porque ofende determinada sensibilidade. Amanhã poderá eliminar-se uma ideia. Depois, uma personagem. Finalmente, uma passagem inteira.
E quem determina aquilo que é aceitável?
Os valores dominantes de 2026 não serão necessariamente os valores de 2050. Se cada geração reescrever os livros anteriores segundo a sua própria moral, acabaremos com obras permanentemente atualizadas e cada vez mais afastadas dos autores que as escreveram.
A literatura deixaria, assim, de ser também um documento do seu tempo.

Contextualizar, sim. Reescrever, não.
Existe uma solução muito mais inteligente.
Quando uma obra contém expressões racistas, sexistas ou simplesmente ultrapassadas, explique-se o contexto. Acrescente-se um prefácio. Incluam-se notas históricas. Ensine-se aos jovens por que determinadas palavras eram utilizadas e por que deixaram de ser aceitáveis. Isso é educação.
Eliminar silenciosamente palavras do texto original é outra coisa.
Até a CEO da PEN America, Suzanne Nossel, alertou para um problema essencial neste debate: quem aprova alterações porque concorda com os valores de quem hoje segura a caneta deveria pensar no que poderá acontecer quando essa mesma capacidade de reescrever estiver nas mãos de pessoas com valores completamente diferentes.
Esse argumento ultrapassa esquerda e direita.
Não precisamos de proteger adultos dos livros
Uma sociedade intelectualmente madura deve conseguir confrontar-se com ideias desagradáveis, erradas ou ofensivas.
Ler uma expressão racista num romance de outra época não transforma automaticamente o leitor num racista. Pelo contrário, compreender por que aquela expressão existia pode ensinar muito mais sobre preconceito do que simplesmente fazê-la desaparecer.
Não devemos transformar a literatura num espaço esterilizado onde apenas sobrevivem palavras aprovadas pela moral contemporânea.
O passado não precisa de ser perfeito para ser estudado. Precisa de ser verdadeiro.
Podemos — e devemos — condenar preconceitos do passado e explicar às novas gerações por que determinadas ideias estavam erradas. Podemos publicar novos autores, novas histórias e novas perspetivas.
Mas deixemos os mortos escreverem aquilo que realmente escreveram.
Porque uma sociedade que começa por corrigir as palavras do passado corre o risco de acabar por esquecer como esse passado realmente era.
Preservar um livro não significa concordar com tudo o que nele está escrito. Significa preservar a História.
E tu, o que achas: evolução ou censura?
Fontes: PEN America, Ian Fleming Publications, The Guardian — Roald Dahl
Sentinela Lusa

