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Portugal tem cada vez menos filhos: de 3,2 para apenas 1,3 filhos por mulher

Durante décadas, Portugal foi um país de famílias numerosas. Hoje, porém, a realidade mudou profundamente. Os portugueses têm cada vez menos filhos, têm-nos mais tarde e muitas famílias ficam apenas por uma criança.

Os números mostram uma transformação impressionante. Em 1960, cada mulher tinha, em média, 3,19 filhos. Em 2025, esse valor caiu para apenas 1,30 filhos por mulher, segundo os dados mais recentes do INE/PORDATA — Índice sintético de fecundidade.

Portanto, a baixa natalidade em Portugal deixou há muito de ser apenas uma questão familiar. Tornou-se um problema económico, social e estratégico para o futuro do país.

Portugal deixou de substituir as gerações

O chamado nível de substituição das gerações situa-se aproximadamente nos 2,1 filhos por mulher. Em 1982, Portugal já registava apenas 2,08. No ano seguinte caiu para 1,96 e nunca mais regressou ao nível necessário para assegurar naturalmente a substituição das gerações.

Além disso, a descida do número de nascimentos é igualmente evidente. Em 1960 nasceram 213.895 crianças em Portugal. Em 2025 foram registados apenas 87.764 nados-vivos, de acordo com a PORDATA — Nados-vivos em Portugal.

Entretanto, esta tendência não acontece apenas em Portugal. Em 2024, a taxa de fecundidade da União Europeia caiu para 1,34 filhos por mulher, o valor mais baixo desde o início da série europeia em 2001, segundo o EUROSTAT Portugal encontrava-se ainda abaixo dessa média, com 1,27 nesse ano.

Outro fenómeno acompanha a baixa natalidade: o adiamento da maternidade.

Em 1960, uma mulher portuguesa tinha o primeiro filho, em média, aos 25 anos. Em 2025, essa idade atingiu os 30,4 anos, segundo a PORDATA. Porquê? A resposta não depende de um único fator.

Em primeiro lugar, muitos jovens enfrentam dificuldades para conquistar estabilidade financeira. Além disso, comprar ou arrendar casa tornou-se particularmente difícil nas principais zonas urbanas. A própria Sentinela Lusa já analisou esta contradição no artigo “Portugal tem 723 mil casas vazias — então porque falta alojamento?”.

A OCDE também identifica uma relação entre preços elevados da habitação, empregos inseguros, permanência dos jovens em casa dos pais e adiamento da formação de uma família. Portugal surge precisamente entre os países onde muitos jovens permanecem durante mais tempo no agregado familiar dos pais.

Em 2024, os portugueses saíam de casa dos pais, em média, aos 28,9 anos, enquanto a média europeia era de 26,2 anos, segundo o Eurostat.

Menos crianças, mais idosos

Consequentemente, Portugal envelhece rapidamente.

Em 2025 existiam aproximadamente 189 idosos por cada 100 jovens com menos de 15 anos. Em 1960 existiam apenas cerca de 27. O índice de sustentabilidade potencial também caiu drasticamente ao longo das últimas décadas.

Isto significa que, proporcionalmente, haverá menos pessoas em idade ativa para financiar pensões, saúde e restantes serviços públicos.

Portanto, discutir natalidade não significa apenas perguntar quantos filhos querem ter os portugueses. Significa também perguntar quem trabalhará, produzirá riqueza e financiará o Estado social nas próximas décadas.

A imigração resolve o problema?

Perante este cenário, Portugal tem compensado parte do défice natural através da imigração. Trabalhadores estrangeiros podem reforçar a população ativa, aumentar contribuições para a Segurança Social e preencher setores com falta de mão de obra.

No entanto, a imigração não elimina automaticamente o problema estrutural da baixa natalidade.

Como analisámos em “Imigração: de quantas pessoas precisa realmente Portugal?”, uma política migratória sustentável deve considerar emprego, habitação, serviços públicos e capacidade de integração.

Além disso, substituir continuamente população através da imigração não responde à questão fundamental: porque é que tantos portugueses adiam ou desistem de ter os filhos que desejariam?

Portugal precisa de uma verdadeira política de natalidade

Se Portugal quiser inverter esta tendência, terá de criar condições para que formar família deixe de representar um risco económico.

Habitação acessível, empregos estáveis, salários adequados, creches, benefícios fiscais, conciliação entre trabalho e família e apoio efetivo a quem decide ter um segundo ou terceiro filho devem fazer parte da discussão.

O país também precisa de combater o despovoamento territorial.

Portugal passou de 3,19 para apenas 1,30 filhos por mulher em 65 anos.

Talvez a pergunta mais importante já não seja simplesmente porque nascem poucas crianças.

A verdadeira questão é outra:

Que Portugal existirá daqui a 30 ou 40 anos se continuarmos a ter cada vez menos filhos?

Na minha opinião, Portugal está a cometer um erro histórico ao tratar a baixa natalidade como um problema secundário. Se nada mudar, a composição demográfica do país continuará a transformar-se profundamente nas próximas décadas. Enquanto os portugueses têm cada vez menos filhos, a imigração tornou-se uma das principais formas de compensar o envelhecimento e a redução da população ativa.

Portugal deveria perguntar primeiro porque razão tantos jovens portugueses querem formar família, mas adiam ou abandonam essa decisão devido aos salários baixos, à precariedade, ao preço da habitação e à dificuldade de conciliar trabalho e vida familiar.

Se continuarmos com uma fecundidade muito abaixo do nível de substituição das gerações e dependermos permanentemente da imigração para compensar essa quebra, é inevitável que a composição da população portuguesa mude de forma significativa.

Uma nação que não consegue assegurar a continuidade das suas gerações deve encarar o problema com seriedade. A natalidade não é apenas uma questão privada. É também uma questão económica, social e estratégica para o futuro de Portugal.

Fontes: PORDATA, Eurostat

Sentinela Lusa

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