InícioOpiniãoMaçonaria portuguesa: que influência teve e tem hoje em Portugal?

Maçonaria portuguesa: que influência teve e tem hoje em Portugal?

Durante quase três séculos, a Maçonaria atravessou monarquias, revoluções, a República, uma ditadura e a democracia portuguesa. Foi perseguida, proibida, clandestina e novamente legalizada. Pelo caminho, passaram pelas suas lojas políticos, militares, intelectuais e outras figuras influentes da sociedade portuguesa.

Por isso, uma pergunta continua a acompanhar a sua história: quanto poder teve realmente a Maçonaria em Portugal — e quanto conserva hoje?

A resposta histórica é relativamente clara. A atual é bastante mais difícil.

Das primeiras lojas ao Liberalismo

A Maçonaria moderna chegou a Portugal no século XVIII. A primeira loja conhecida terá surgido em Lisboa por volta de 1727, poucas décadas depois da expansão da Maçonaria moderna na Europa.

Inicialmente discreta, encontrou rapidamente a desconfiança das autoridades políticas e religiosas. Os princípios de tolerância, livre pensamento e fraternidade chocavam com uma sociedade marcada pelo absolutismo e pela forte influência da Igreja.

Contudo, foi durante o século XIX que ganhou maior importância. O Liberalismo abriu-lhe espaço e as lojas tornaram-se locais de encontro entre membros das elites políticas, militares e intelectuais. RTP Ensina – História da Maçonaria em Portugal

Assim, as redes maçónicas começaram a cruzar-se com as redes de poder.

Isso não significa que a Maçonaria comandasse secretamente Portugal. Significa, porém, que passou a constituir uma estrutura relevante de sociabilidade e influência entre setores das elites.

República: a influência torna-se evidente

Se existe um período em que a influência política maçónica dificilmente pode ser ignorada, é o final da Monarquia e o início da República.

Republicanos, políticos e ativistas passaram pelas estruturas maçónicas. Ao mesmo tempo, a proximidade entre republicanismo, laicismo e setores da Maçonaria tornou-se particularmente forte.

A Maçonaria desempenhou, portanto, um papel relevante no ambiente político que conduziu à implantação da República em 5 de outubro de 1910.

No entanto, importa distinguir Maçonaria, Partido Republicano e Carbonária. Não eram a mesma organização, embora membros e objetivos se cruzassem em determinados momentos.

Depois da implantação da República, a presença de maçons na vida política tornou-se ainda mais visível.

Nascia também uma questão que continua atual: onde termina uma associação privada e começa uma rede de influência política?

Estado Novo: da proibição à clandestinidade

A situação mudou radicalmente com a Ditadura e, posteriormente, com o Estado Novo.

Em 1935, a Lei n.º 1901 proibiu as chamadas sociedades secretas. A Maçonaria tornou-se um dos principais alvos. O Grande Oriente Lusitano foi ilegalizado e os seus bens acabaram confiscados.

A organização passou à clandestinidade.

Curiosamente, Fernando Pessoa, embora não fosse conhecido como maçon, criticou publicamente a legislação e defendeu a liberdade da Maçonaria.

Durante décadas, a organização perdeu grande parte da influência pública que possuíra durante a Primeira República. Contudo, não desapareceu.

Depois do 25 de Abril

A Revolução de 1974 permitiu o regresso da Maçonaria à legalidade. As lojas reorganizaram-se e diferentes obediências desenvolveram atividade em Portugal.

Mas o país era agora muito diferente.

Portugal tornou-se uma democracia pluralista, com partidos, eleições livres, comunicação social, associações, sindicatos e inúmeras estruturas capazes de exercer influência.

Consequentemente, comparar diretamente o poder maçónico do início do século XX com o atual seria um erro.

Isso não significa que a questão tenha desaparecido. A Maçonaria como poder político e social em Portugal.

Quanto poder tem hoje a Maçonaria?

Aqui entramos num terreno mais difícil.

Ao longo da democracia portuguesa surgiram políticos, empresários, juristas, académicos e outras personalidades associados publicamente à Maçonaria.

No entanto, daí até afirmar que “a Maçonaria controla Portugal” existe uma enorme distância. Não existem provas sólidas que permitam sustentar uma afirmação tão abrangente.

O verdadeiro problema está na dificuldade em medir a influência.

As lojas criam relações pessoais entre os seus membros. Pessoas encontram-se, partilham valores, rituais e um sentimento de fraternidade. Inevitavelmente, formam-se redes.

Mas uma rede não é automaticamente uma conspiração.

Partidos, universidades, associações empresariais, organizações religiosas, famílias ou antigos colegas também criam redes capazes de abrir portas.

A Maçonaria possui, contudo, uma característica que alimenta suspeitas: a discrição sobre os seus membros e parte da sua atividade interna.

Quando essa discrição se cruza com cargos públicos, surgem perguntas legítimas. Arquivo Histórico do Grémio Lusitano

O verdadeiro problema: conflitos de interesses

Numa democracia, qualquer cidadão deve poder pertencer legalmente a uma associação. Ser maçon, por si só, não constitui qualquer irregularidade.

O problema começa quando uma lealdade privada interfere com uma responsabilidade pública.

Imagine-se um governante, magistrado ou dirigente público obrigado a tomar uma decisão que envolve outro membro da mesma organização.

A pergunta fundamental deixa então de ser “é maçon?” e passa a ser “existe conflito de interesses?”

E essa regra deve aplicar-se à Maçonaria, mas também aos partidos, empresas, associações religiosas ou qualquer outra rede de influência.

Entre o mito e a realidade

A Maçonaria portuguesa vive num paradoxo: quanto maior a discrição que a envolve, maiores são as teorias sobre o seu poder.

Dizer que nunca teve influência política em Portugal seria historicamente falso. Teve-a e, em determinados períodos, de forma significativa.

Por outro lado, afirmar que atualmente existe um comando maçónico oculto que controla governos, tribunais ou outras instituições exigiria provas que não existem publicamente.

A realidade provavelmente encontra-se entre esses extremos.

A Maçonaria continua a reunir pessoas potencialmente influentes e, consequentemente, mantém capacidade de relacionamento e influência social. Contudo, influência não significa controlo.

Portugal não precisa de perseguir associações legais nem de alimentar teorias sem provas. Precisa de transparência, regras rigorosas sobre conflitos de interesses e instituições suficientemente fortes para impedir que qualquer lealdade privada se sobreponha ao interesse público.

A Maçonaria ajudou a escrever capítulos importantes da História portuguesa. Já a dimensão exata do seu poder atual permanece difícil de determinar.

E talvez seja precisamente isso que mantém viva, quase três séculos depois, a pergunta:

Quanto poder existe realmente por detrás das portas que permanecem fechadas?

A minha opinião

Pessoalmente, é precisamente aqui que mantenho a minha maior reserva em relação à Maçonaria. Não desconfio porque conheço o que se passa lá dentro; desconfio precisamente porque não conheço.

Numa democracia que exige cada vez mais transparência a políticos, magistrados, empresários e responsáveis públicos, é legítimo questionar uma organização que reúne pessoas influentes mantendo grande parte da sua vida interna longe do olhar público.

O segredo alimenta inevitavelmente a suspeita. E quando não sabemos quem pertence, que relações se estabelecem ou até onde chega a solidariedade entre membros, torna-se difícil avaliar onde termina a fraternidade e onde pode começar a influência.

Isto não significa acusar a Maçonaria de controlar Portugal. Sem provas, essa afirmação seria irresponsável. Mas também não significa que devamos ignorar as dúvidas que uma organização tão discreta naturalmente levanta quando alguns dos seus membros ocupam posições de poder.

Talvez esteja na altura de a própria Maçonaria dar um passo em frente.

Se os seus objetivos são legítimos e compatíveis com uma sociedade democrática, por que não abrir um pouco mais as portas? Por que não explicar melhor aos portugueses quem é, como funciona e quais os limites da solidariedade maçónica quando estão em causa responsabilidades públicas?

A transparência não deveria ser uma ameaça para uma instituição que nada tem a esconder. Pelo contrário, poderia ser a melhor forma de combater os mitos e teorias que há décadas a acompanham.

No século XXI, talvez o maior desafio da Maçonaria portuguesa já não seja proteger os seus segredos. Talvez seja explicar por que razão ainda precisa de tantos… ao esconderem-se, alimentam a desconfiança!

Fontes: RTP Ensina, Arquivo Histórico do Grémio Lusitano

Sentinela Lusa

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