InícioPortugalO SNS sem médicos. Um assunto urgente a resolver

O SNS sem médicos. Um assunto urgente a resolver

Durante anos, Portugal habituou-se a ouvir a mesma explicação: faltam médicos. Porém, os números obrigam a fazer uma pergunta mais incómoda, principalmente quando pensamos no SNS sem médicos.

Portugal forma médicos, tem milhares de profissionais licenciados e continua a apresentar concursos do Serviço Nacional de Saúde com centenas de vagas vazias.

Portanto, o problema já não pode ser resumido a uma simples “falta de médicos”. O problema é também a incapacidade do Estado para os atrair, distribuir e, sobretudo, manter no SNS.

Segundo a OCDE — Health at a Glance 2025: Portugal, Portugal apresenta 5,8 médicos licenciados por mil habitantes.

Contudo, é importante fazer uma ressalva: no caso português, o indicador inclui médicos habilitados a exercer e não apenas médicos efetivamente em prática clínica. Por isso, não pode ser diretamente comparado com a média de 3,9 médicos em exercício indicada para a OCDE.

Ainda assim, uma coisa parece evidente: Portugal não parte de um deserto de formação médica.

Centenas de vagas que os médicos não querem

O verdadeiro choque aparece quando olhamos para os concursos do SNS.

Em 2026, o concurso para Medicina Geral e Familiar disponibilizou 711 vagas. Apenas 273 foram ocupadas, cerca de 38%.

Ou seja, ficaram por preencher mais de quatro centenas de lugares numa especialidade fundamental para os cuidados de saúde primários. RTP/Lusa — Concurso para médicos de família preencheu 273 das 711 vagas

Isto já não pode ser tratado como azar. É uma política pública que está a falhar. Aliás, os sinais já estavam todos à vista.

Em 2025, a Ordem dos Médicos alertou para a crise estrutural das vagas não preenchidas. Das 690 vagas de internato em Medicina Geral e Familiar, 229 ficaram vazias.

Na Medicina Interna, apenas 106 das 204 vagas foram preenchidas.

Quando especialidades fundamentais deixam de atrair jovens médicos, o sistema está a enviar um sinal que qualquer Governo responsável deveria saber interpretar.

O Estado forma médicos e depois não consegue segurá-los

Durante demasiado tempo, Portugal tratou profissionais altamente qualificados como se fossem peças facilmente substituíveis da máquina administrativa.

Horários pesados, urgências sucessivas, burocracia, progressões de carreira pouco atrativas, serviços permanentemente sob pressão e dificuldades de conciliação entre vida profissional e familiar transformaram algumas carreiras no SNS num verdadeiro exercício de resistência.

Depois, o Estado mostra-se surpreendido quando um médico escolhe o privado, trabalha à prestação, reduz a sua disponibilidade para o SNS ou procura outras oportunidades.

É difícil imaginar uma política de recursos humanos mais contraditória.

O Estado investe durante anos na formação de um médico. O SNS dá-lhe experiência, coloca-o perante enorme responsabilidade clínica e exige disponibilidade.

Porém, quando chega o momento de o fixar, demasiadas vezes não consegue oferecer condições suficientemente atrativas para competir com as alternativas. Entretanto, o próprio Estado recorre a prestações de serviços para preencher necessidades.

A Sentinela Lusa já abordou esta contradição em Recibos verdes no Estado: quem combate a precariedade também a alimenta?.

O estrangeiro continua a ser mais atrativo. Portugal forma bons médicos, investe na sua educação e dá-lhes uma preparação reconhecida. Depois, outros países oferecem melhores salários, carreiras mais previsíveis, melhores condições de trabalho e maior reconhecimento profissional. O resultado é perverso: Portugal suporta uma parte importante do custo da formação e o estrangeiro agradece. Enquanto não conseguirmos tornar o SNS competitivo para quem cá se forma, continuaremos a exportar talento médico e a importar escassez para os nossos hospitais e centros de saúde.

O interior volta a perder

Existe ainda outro problema: o mapa de Portugal.

A OCDE assinala diferenças importantes na distribuição dos médicos entre áreas metropolitanas e zonas mais remotas. OCDE — Physical access to health services

E este problema não existe isoladamente.

Como já analisámos em Porque o litoral cresce e o interior perde população?, Portugal continua profundamente desequilibrado territorialmente.

Não se fixa um médico numa região apenas através de um despacho.

É necessário oferecer carreira, condições de trabalho, habitação acessível, boas escolas, transportes, oportunidades profissionais para a família e qualidade de vida.

Por isso, abrir vagas não chega.

Um Governo pode anunciar 500, 700 ou mil lugares. Se os profissionais não os querem, o anúncio vale pouco.

Uma vaga vazia não consulta doentes, nem mantém uma urgência aberta. Não acompanha uma gravidez. Não dá médico de família a ninguém.

Portugal continua a governar a Saúde com remendos

Sucessivos governos cometeram um erro básico: concentraram-se demasiado no número de vagas autorizadas e demasiado pouco nas razões pelas quais tantos profissionais recusam essas vagas.

A política de Saúde precisa de abandonar esta permanente gestão de emergência.

Portugal necessita de carreiras previsíveis, valorização do mérito, melhores condições de trabalho, incentivos realmente fortes para zonas carenciadas, menos burocracia clínica e gestores capazes de assumir responsabilidades pelos resultados.

Além disso, é preciso deixar de tratar cada crise como se tivesse começado ontem.

O problema atravessa governos, ministros e partidos. É estrutural.

Na Sentinela Lusa defendemos que Portugal precisa de políticos com sentido de missão. Poucas áreas demonstram essa necessidade tão claramente como a Saúde.

Um SNS forte não se constrói com conferências de imprensa, slogans ou vagas publicadas no Diário da República.

Constrói-se tornando o serviço público suficientemente atrativo para que bons profissionais queiram entrar — e tenham razões para ficar.

Portanto, talvez estejamos há demasiados anos a fazer a pergunta errada.

A pergunta já não deve ser apenas:

“Onde estão os médicos?”

A verdadeira pergunta é muito mais incómoda:

Porque é que tantos médicos olham para o SNS e decidem que o futuro deles está noutro lugar?

Enquanto a política portuguesa não responder seriamente a essa pergunta, continuaremos perante o mesmo paradoxo:

Médicos no país, vagas nos hospitais e centros de saúde — e portugueses à espera.

Fontes: OCDE, RTP/LUSA, Ordem dos Médicos

Sentinela Lusa

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