Durante décadas, associámos a máfia a organizações fechadas, famílias criminosas, homens armados, extorsão e violência nas ruas. Essa realidade continua a existir, mas o crime organizado na Europa está a mudar profundamente.
As novas máfias europeias não precisam de parecer máfias. Podem utilizar empresas perfeitamente legais, contas bancárias, criptomoedas, plataformas digitais e especialistas altamente qualificados. Em muitos casos, procuram precisamente misturar-se com a economia legítima.
Um relatório publicado pela Europol em 26 de junho de 2026 mostra até que ponto esta transformação já aconteceu. A agência europeia descreve organizações criminosas cada vez mais ágeis, transnacionais e capazes de explorar vulnerabilidades económicas e tecnológicas. Europol — The Blueprint of Criminal Opportunism
Mais de 700 redes criminosas analisadas
Os números impressionam.
Segundo dados apresentados pela Comissão Europeia e pela Europol, as autoridades analisaram mais de 700 das redes criminosas consideradas mais ameaçadoras da União Europeia, envolvendo mais de 400 mil membros de 118 países.
Mas existe outro número particularmente importante: 85% dessas redes utilizam estruturas empresariais legais. Comissão Europeia — análise das redes criminosas mais perigosas da UE
Isto não significa, evidentemente, que essas empresas exerçam necessariamente atividades ilegais na totalidade da sua operação. As organizações criminosas podem criar, controlar, infiltrar ou explorar negócios legítimos para transportar mercadorias, movimentar dinheiro, justificar rendimentos ou branquear capitais.
A empresa transforma-se, assim, numa ferramenta do crime.

O crime organizado entrou definitivamente na era digital
O computador tornou-se tão importante para algumas organizações criminosas como as armas ou os veículos usados pelas máfias tradicionais.
A Europol destaca o uso crescente de plataformas digitais, comunicações encriptadas e inteligência artificial. As redes também recorrem a criptomoedas e diferentes mecanismos de branqueamento para movimentar e esconder os lucros provenientes das suas atividades. Europol — Criminal opportunism: how criminal networks exploit society
Surge ainda um conceito especialmente preocupante: “crime-as-a-service”, ou crime como serviço.
Uma organização já não precisa de dominar todas as etapas de uma operação criminosa. Pode recorrer a especialistas externos para branquear dinheiro, falsificar documentos, realizar ataques informáticos ou disponibilizar infraestruturas tecnológicas.
O crime organizado começa, assim, a funcionar como um verdadeiro ecossistema empresarial clandestino.
Drogas, fraude, tráfico humano e cibercrime
O tráfico de droga continua a representar uma atividade central destas organizações, mas as novas redes diversificaram os seus negócios.
A Europol identifica atividades relacionadas com cibercrime, fraude, branqueamento de capitais, tráfico de seres humanos, introdução clandestina de migrantes e diferentes serviços criminosos especializados.
As fronteiras nacionais também representam um obstáculo cada vez menor. Uma organização pode ter responsáveis num país, empresas noutro, contas bancárias num terceiro e vítimas espalhadas por toda a Europa.
A polícia destrói redes, mas outras aparecem
As autoridades europeias também conseguem resultados importantes.
Das 821 redes criminosas identificadas pela Europol em 2024, 76% já não estavam classificadas em 2026 entre as redes mais ameaçadoras. Algumas foram desmanteladas ou enfraquecidas; outras reorganizaram-se, dissolveram-se ou deixaram de atingir o mesmo nível de ameaça.
Contudo, 198 redes permaneceram e 533 novas redes surgiram na análise mais recente.
Isto demonstra a enorme capacidade de adaptação do crime organizado.
A nova máfia pode ter aparência perfeitamente legal
Talvez este seja o principal desafio para a Europa.
Continuamos muitas vezes a imaginar o criminoso organizado através da imagem clássica do mafioso. Mas as novas organizações podem apresentar uma aparência completamente diferente.
Podem gerir empresas, contratar especialistas, movimentar criptomoedas, comunicar através de sistemas encriptados e explorar oportunidades em vários países simultaneamente.
A violência não desapareceu. O tráfico de droga também não.
Mas o crime organizado tornou-se mais tecnológico, empresarial e global.
As novas máfias europeias podem já não precisar de parecer máfias.
E talvez seja precisamente isso que as torna tão difíceis de identificar.
Fontes: Europol, Comissão Europeia
Sentinela Lusa

