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Aristides de Sousa Mendes: o português que escolheu a consciência acima das ordens

Há momentos em que cumprir ordens e fazer o que consideramos certo deixam de ser a mesma coisa. Aristides de Sousa Mendes enfrentou precisamente esse dilema em junho de 1940.

Portugal vivia sob o Estado Novo e mantinha uma posição de neutralidade na Segunda Guerra Mundial. Entretanto, as tropas da Alemanha nazi avançavam rapidamente sobre França. Paris caiu a 14 de junho e milhares de pessoas fugiram para sul, tentando escapar da guerra e das perseguições.

Muitas chegaram a Bordéus. Para atravessarem Espanha e entrarem em Portugal, precisavam de vistos.

E aí encontraram um português que ficaria para a História.

Quem era Aristides de Sousa Mendes?

Aristides de Sousa Mendes nasceu em Cabanas de Viriato, no concelho de Carregal do Sal, em 1885. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e seguiu a carreira diplomática, passando por vários países antes de assumir funções como cônsul de Portugal em Bordéus. Panteão Nacional

Quando a guerra chegou a França, Sousa Mendes tinha diante do consulado milhares de refugiados desesperados.

Entre eles encontravam-se judeus perseguidos pelo regime nazi, opositores políticos e famílias inteiras que procuravam simplesmente uma passagem para um país seguro.

Mas havia um problema.

A Circular 14 limitava a concessão de vistos

Em novembro de 1939, o Governo português tinha emitido a chamada Circular n.º 14. As instruções condicionavam a concessão de vistos a determinadas categorias de estrangeiros e exigiam, em vários casos, autorização prévia de Lisboa.

Quando a situação em França se tornou caótica, Aristides de Sousa Mendes decidiu desobedecer.

Passou a conceder vistos aos refugiados que os procuravam, independentemente da nacionalidade, raça ou religião. Em Bordéus e posteriormente em locais como Baiona e Hendaia, milhares de pessoas receberam documentos que lhes permitiram prosseguir a fuga através da Península Ibérica. Destaques Arquivo MPR

Era uma decisão extraordinária porque Sousa Mendes sabia que estava a contrariar as instruções dos seus superiores.

Quantas pessoas salvou?

É aqui que devemos separar o feito histórico da simplificação.

Durante décadas tornou-se popular a afirmação de que Aristides de Sousa Mendes teria salvado 30.000 pessoas, das quais cerca de 10.000 seriam judeus. Algumas instituições ainda apresentam esses números.

Contudo, a documentação disponível e diferentes investigações históricas não permitem considerar essa estimativa uma contagem definitiva.

Por isso, a formulação mais rigorosa é também a mais simples: Aristides de Sousa Mendes ajudou milhares de refugiados a escapar da Europa ocupada pelos nazis. O próprio Governo português e o Yad Vashem utilizam referências a milhares de pessoas salvas.

Ainda assim, o número exato pode continuar a ser discutido. A dimensão moral da decisão dificilmente pode.

O Estado castigou a sua desobediência

Lisboa reagiu.

Sousa Mendes foi submetido a um processo disciplinar. Em outubro de 1940 recebeu uma pena de um ano de inatividade, com metade do vencimento, seguindo-se a aposentação compulsiva.

A sua situação económica deteriorou-se nos anos seguintes. Morreu em Lisboa, em 3 de abril de 1954, sem assistir ao reconhecimento que posteriormente receberia.

E esse reconhecimento demorou décadas.

Em 1966, o Yad Vashem, em Israel, distinguiu Aristides de Sousa Mendes como Justo entre as Nações, título atribuído a não judeus que arriscaram a própria segurança para salvar judeus durante o Holocausto.

Portugal acabaria igualmente por reparar a condenação.

Em 1988, a Assembleia da República aprovou por unanimidade a sua reintegração póstuma na carreira diplomática através da Lei n.º 51/88. Em 2021, Portugal concedeu-lhe Honras de Panteão Nacional.

Quando desobedecer se transforma num dever moral

A história de Aristides de Sousa Mendes ultrapassa a Segunda Guerra Mundial.

Coloca uma questão que permanece atual: até onde deve alguém obedecer ao Estado quando acredita que uma ordem viola princípios humanos fundamentais?

Um funcionário público tem deveres. Um diplomata representa o seu país e deve cumprir instruções. Sem regras e hierarquias, as instituições dificilmente funcionariam.

Mas existem momentos extremos em que consciência, lei e obediência podem entrar em conflito.

Aristides tomou a sua decisão.

Sabia que podia perder a carreira. Mesmo assim, escolheu ajudar quem tinha diante de si.

Décadas depois, o próprio Estado português que o puniu reconheceu oficialmente a injustiça e devolveu-lhe, postumamente, o lugar na carreira diplomática.

Talvez seja essa a parte mais poderosa desta história.

Aristides de Sousa Mendes não precisou de saber como a História o julgaria. Teve de decidir naquele momento de que lado queria ficar.

E escolheu a consciência...

Fontes: Panteão Nacional, Arquivo Museu da Presidência

Sentinela Lusa

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