A China é governada pelo Partido Comunista Chinês, exibe símbolos comunistas e apresenta oficialmente o socialismo como base do seu sistema político. No entanto, o país também possui empresas privadas, multimilionários, bolsas de valores, multinacionais, investimento estrangeiro e uma enorme economia orientada para o mercado. Perante esta realidade, surge uma pergunta inevitável: a China é realmente comunista?
A resposta não é simplesmente “sim” ou “não”. Politicamente, a China mantém características fundamentais de um regime comunista. Economicamente, porém, afastou-se profundamente do modelo comunista clássico e criou um sistema próprio que Pequim chama de “socialismo com características chinesas”.
A China de Mao era muito diferente
Quando Mao Tsé-Tung proclamou a República Popular da China em 1949, o novo regime iniciou uma profunda transformação económica e social.
O Estado nacionalizou grande parte da economia, coletivizou a agricultura e passou a controlar a produção. Além disso, limitou fortemente a propriedade privada e tentou organizar a economia através de planos definidos pelo poder central.
Esse modelo aproximava-se claramente das economias comunistas tradicionais do século XX.
Contudo, várias políticas provocaram graves dificuldades económicas e sociais. Depois da morte de Mao, em 1976, a liderança chinesa começou gradualmente a procurar um caminho diferente.
Deng Xiaoping mudou a economia chinesa
A grande transformação começou em 1978, sob a influência de Deng Xiaoping.
Em vez de abandonar oficialmente o socialismo, a China decidiu introduzir mecanismos de mercado dentro do próprio sistema. O país abriu algumas regiões ao investimento estrangeiro, criou zonas económicas especiais, deu maior autonomia às empresas e permitiu o crescimento progressivo da iniciativa privada.
Consequentemente, a economia chinesa começou a crescer de forma extraordinária. Segundo o Banco Mundial, desde o início das reformas em 1978, o crescimento do PIB chinês registou durante décadas uma média superior a 9% ao ano e cerca de 800 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema.
Portanto, a China não abandonou o Partido Comunista. Mudou sobretudo a forma como produzia riqueza.
Existe capitalismo na China?
Na prática, muitos elementos presentes na economia chinesa seriam facilmente associados ao capitalismo.
Existem empresas privadas, concorrência, investidores, mercados financeiros, propriedade privada de determinados bens e empresários extremamente ricos. Empresas chinesas competem internacionalmente nos setores da tecnologia, automóvel, comércio eletrónico, telecomunicações e energia.
Aliás, o peso da iniciativa privada tornou-se enorme. Dados oficiais chineses indicam que as empresas privadas representam mais de 92% do total de empresas e contribuem com mais de metade das receitas fiscais e das importações e exportações do país. Além disso, asseguram mais de 80% do emprego urbano.
Em maio de 2025, a China colocou inclusivamente em vigor uma Lei de Promoção da Economia Privada, destinada a reforçar juridicamente o papel destas empresas.
Então, podemos chamar à China um país capitalista?
Não completamente.

O Estado continua a controlar setores estratégicos
Apesar da dimensão do setor privado, o Estado chinês mantém um enorme poder económico.
A Constituição estabelece que o setor estatal deve continuar a ser uma força dominante da economia. Além disso, áreas consideradas estratégicas, como energia, banca, transportes, telecomunicações e defesa, continuam fortemente influenciadas ou diretamente controladas pelo Estado. Banco Mundial — China
A própria terra também funciona de forma muito diferente das economias capitalistas ocidentais. Nas cidades, pertence ao Estado; nas zonas rurais, pertence geralmente a coletividades. Os particulares podem adquirir direitos de utilização, mas não existe exatamente o mesmo conceito de propriedade fundiária privada encontrado em muitos países europeus.
Por isso, o mercado existe, mas funciona dentro de limites políticos definidos pelo Estado e pelo Partido Comunista.
Politicamente, a China continua comunista?
É precisamente aqui que encontramos a maior diferença entre a China e uma democracia liberal ocidental.
A Constituição chinesa afirma explicitamente que o sistema socialista constitui o sistema fundamental do país e que a liderança do Partido Comunista Chinês representa uma característica essencial do chamado socialismo com características chinesas.
O Partido exerce uma influência determinante sobre o Estado, as forças armadas e as grandes orientações económicas. Pequim não adotou o modelo de alternância política existente nas democracias multipartidárias ocidentais.
Além disso, o próprio Partido Comunista continua oficialmente a afirmar que a realização do comunismo constitui o seu objetivo final.
Portanto, embora a economia tenha mudado profundamente, o Partido nunca abandonou formalmente a ideologia socialista nem o seu monopólio político.
Afinal, a China é comunista ou capitalista?
Talvez a resposta mais correta seja: a China combina elementos dos dois sistemas, mas sob controlo político comunista.
A própria Constituição reconhece essa particularidade. Por um lado, declara que a propriedade pública constitui a base do sistema económico socialista. Por outro, considera as empresas privadas uma parte importante daquilo que chama “economia socialista de mercado”.
Assim, classificar simplesmente a China como uma economia comunista tradicional seria enganador. Da mesma forma, descrevê-la como uma economia capitalista liberal também ignoraria o enorme peso do Estado e do Partido Comunista.
A China criou, portanto, um modelo muito particular: mercado e iniciativa privada na criação de riqueza, empresas estatais em setores estratégicos e um Partido Comunista que mantém o controlo político do país.
É precisamente este paradoxo que ajuda a explicar uma das maiores transformações económicas das últimas décadas: a China abriu espaço ao capitalismo sem abandonar o poder do Partido Comunista.
Fontes: Constituição da República Popular da China — National People’s Congress; Banco Mundial
Sentinela Lusa

