InícioPortugalPortugal tem 723 mil casas vazias — o que fazer?

Portugal tem 723 mil casas vazias — o que fazer?

Portugal vive uma das maiores crises de habitação das últimas décadas. Comprar casa tornou-se cada vez mais difícil, as rendas pesam fortemente no orçamento das famílias e muitos jovens adiam a saída de casa dos pais. Mas existe um dado que parece contradizer toda esta realidade: Portugal tem 723 mil casas vazias. Como pode um país ter tantas casas vazias e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em encontrar casa?

A pergunta merece ser feita. Sair da casa do pais.

Segundo os Censos de 2021, Portugal tinha 723.215 alojamentos vagos, correspondentes a cerca de 12,1% do parque habitacional. Portugal tem 723 mil casas vazias e, mesmo assim, muitas famílias enfrentam dificuldades em encontrar habitação adequada. Além disso, existiam mais de 1,1 milhões de residências secundárias. Fonte oficial do INE.

Somados, estamos perante uma enorme quantidade de imóveis que não funcionam como residência habitual. Então porque continuamos a falar de falta de casas?

Ter casas não significa ter casas disponíveis

A resposta não é tão simples como parece. Nem todos os alojamentos vagos estão imediatamente disponíveis para venda ou arrendamento.

Alguns encontram-se degradados. Outros estão envolvidos em heranças ou disputas familiares. Há imóveis cujos proprietários não querem arrendar, casas localizadas em regiões onde existe pouca procura e edifícios cuja recuperação pode custar mais do que aquilo que os proprietários conseguem suportar.

Há ainda casas que permanecem fechadas durante anos simplesmente porque os seus proprietários não sentem necessidade económica de as colocar no mercado. Portanto, seria errado afirmar que bastaria abrir as portas das 723 mil casas vagas para resolver automaticamente a crise. Mas também seria errado ignorar a dimensão do número.

Um país com centenas de milhares de alojamentos vazios não pode discutir habitação apenas como se o problema fosse falta absoluta de edifícios. Existe também um problema de utilização do parque habitacional existente.

Construímos onde as pessoas precisam de viver?

Existe outra contradição. Portugal possui muitas casas, mas elas nem sempre estão onde existe procura.

O emprego, as universidades, os serviços e grande parte da atividade económica concentram-se sobretudo nas áreas metropolitanas e no litoral. É aí que milhares de pessoas procuram habitação.

Ao mesmo tempo, encontramos no interior aldeias e pequenas cidades com casas vazias e populações em declínio. Podemos ter habitação disponível numa determinada região e uma enorme escassez a 200 quilómetros de distância.

Uma casa vazia numa aldeia do interior não resolve a dificuldade de uma enfermeira que trabalha em Lisboa, de um estudante no Porto ou de uma família que precisa de viver perto do emprego. Portugal tem 723 mil casas vazias, mas nem sempre estas correspondem ao local da procura.

O problema da habitação é também, por isso, um problema de ordenamento do território. Portugal concentrou emprego, população e oportunidades em determinadas zonas sem garantir habitação suficiente nessas mesmas áreas.

Entretanto, os preços continuam a subir

Enquanto discutimos soluções, comprar casa continua cada vez mais caro. No primeiro trimestre de 2026, o preço mediano das habitações transacionadas em Portugal atingiu 2.337 euros por metro quadrado.

Para uma família que vive de salários portugueses, estes valores tornam-se rapidamente difíceis de suportar. E quando comprar se torna impossível, aumenta a pressão sobre o arrendamento.

Quando também faltam casas para arrendar, as rendas sobem. Forma-se então um círculo difícil de quebrar.

Recuperar pode ser tão importante como construir

Naturalmente, Portugal precisa de construir. Principalmente nas regiões onde a procura é maior.

Mas construir novos edifícios não pode ser a única resposta. Há centros históricos degradados, edifícios abandonados, casas fechadas e património residencial que poderia regressar ao mercado.

Reabilitar uma casa existente pode, em muitos casos, fazer mais sentido do que continuar a expandir cidades para terrenos ainda não urbanizados. O próprio Estado e os municípios deveriam conhecer melhor o património que permanece inutilizado e criar mecanismos que facilitem a sua recuperação.

Menos burocracia. Licenciamentos mais rápidos. Incentivos à reabilitação. Maior segurança no arrendamento.

E, quando necessário, políticas públicas direcionadas para os locais onde a falta de habitação é realmente mais grave. Aliás, Portugal tem 723 mil casas vazias, o que representa um potencial significativo para novas soluções habitacionais.

O paradoxo português

A crise da habitação demonstra um problema recorrente em Portugal. Temos recursos, mas nem sempre conseguimos utilizá-los eficazmente. Temos casas vazias e pessoas à procura de casa… um interior a perder população e um litoral cada vez mais pressionado… edifícios degradados e famílias incapazes de encontrar habitação a preços compatíveis com os seus rendimentos.

E depois discutimos cada problema separadamente. Talvez esteja na hora de juntar as peças. Portugal precisa de construir mais onde existe procura.

Mas precisa igualmente de recuperar, mobilizar e utilizar melhor aquilo que já existe.

Porque antes de concluirmos simplesmente que “faltam casas”, talvez devêssemos fazer uma pergunta diferente:

Como pode um país com mais de 723 mil alojamentos vagos continuar incapaz de garantir habitação acessível a uma parte crescente da sua população?

Essa resposta talvez diga muito mais sobre Portugal do que o número de casas que conseguimos construir.

Fontes:

INE — Censos 2021 e estudo O parque habitacional: análise e evolução 2011-2021.
INE — Estatísticas dos preços da habitação, 1.º trimestre de 2026.

Sentinela Lusa

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