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A Portuguesa: como nasceu o Hino Nacional de Portugal

Poucos símbolos representam tão profundamente um país como o seu hino. Em Portugal, basta ouvir as primeiras notas de A Portuguesa para surgir imediatamente uma ligação à história, à bandeira e à identidade nacional. No entanto, aquilo que hoje conhecemos como Hino Nacional de Portugal não nasceu como hino oficial. Pelo contrário, nasceu num momento de revolta e indignação nacional.

A história de A Portuguesa começa em 1890, num dos períodos mais delicados da relação entre Portugal e o Reino Unido.

O Ultimato britânico que revoltou Portugal

No final do século XIX, Portugal pretendia ligar territorialmente Angola a Moçambique através de uma vasta zona no interior de África. Essa ambição ficou associada ao chamado Mapa Cor-de-Rosa.

Contudo, os interesses portugueses chocavam diretamente com os planos britânicos para o continente africano. Assim, em 11 de janeiro de 1890, o Governo britânico enviou um ultimato a Portugal, exigindo a retirada das forças portuguesas de determinadas regiões africanas.

O Governo português acabou por ceder.

Consequentemente, uma enorme onda de indignação atravessou o país. Muitos portugueses sentiram que a soberania e o orgulho nacional tinham sido humilhados por uma potência estrangeira.

Foi precisamente neste ambiente que nasceu A Portuguesa.

Segundo o Museu da Presidência da República, Alfredo Keil terá composto a marcha patriótica na noite de 12 de janeiro de 1890, imediatamente após o Ultimato britânico. Pouco depois, Henrique Lopes de Mendonça escreveu a letra.

O contexto histórico completo pode ser consultado no Museu da Presidência da República.

Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça

A música nasceu pelas mãos de Alfredo Keil, compositor, pintor, poeta e homem ligado à cultura portuguesa.

Por sua vez, Henrique Lopes de Mendonça escreveu uma letra destinada a despertar o sentimento patriótico dos portugueses.

A intenção inicial não consistia necessariamente em criar um hino republicano. Os autores pretendiam sobretudo produzir um canto patriótico capaz de representar aquilo que consideravam ser uma Pátria ferida pelo episódio do Ultimato.

Ainda assim, a força da composição rapidamente ultrapassou os seus criadores.

A Portuguesa começou a espalhar-se pelo país.

Em fevereiro de 1890, a editora Neuparth publicou a partitura para distribuição gratuita. Além disso, a enorme popularidade da marcha chegou ao comércio: apareceram produtos como sardinhas, charutos e até bolachas com o nome “A Portuguesa”.

De marcha patriótica a símbolo republicano

Entretanto, a música começou também a ganhar significado político.

Em 31 de janeiro de 1891, durante a revolta republicana do Porto, os revoltosos marcharam ao som de A Portuguesa. A partir desse momento, as autoridades monárquicas passaram a olhar para a composição com crescente desconfiança.

A ligação ao movimento republicano tornou-se progressivamente mais forte.

Por isso, quando ocorreu a revolução de 5 de outubro de 1910, que pôs fim à Monarquia Constitucional e implantou a República em Portugal, A Portuguesa voltou a ocupar um lugar central.

Nessa manhã, as forças republicanas que desciam a Avenida da Liberdade, em Lisboa, eram acompanhadas por bandas militares que tocavam repetidamente a marcha.

Pouco depois, em 17 de novembro de 1910, o Ministério da Guerra determinou que A Portuguesa fosse executada como hino nacional em cerimónias militares.

A Portuguesa torna-se oficialmente o Hino Nacional

A consagração definitiva chegaria no ano seguinte.

Em 19 de junho de 1911, durante a primeira sessão da Assembleia Nacional Constituinte, A Portuguesa foi oficialmente reconhecida como Hino Nacional de Portugal.

Dessa forma, uma marcha criada como reação ao Ultimato britânico transformou-se, pouco mais de vinte anos depois, num dos principais símbolos da República Portuguesa.

Atualmente, o Hino Nacional constitui também um dos símbolos nacionais previstos no artigo 11.º da Constituição da República Portuguesa.

A informação oficial sobre os símbolos nacionais pode ser consultada igualmente no portal da Presidência da República Portuguesa.

A versão oficial só ficou definida em 1957

Existe, contudo, uma curiosidade que muitos portugueses desconhecem.

Apesar de A Portuguesa ter sido adotada como Hino Nacional em 1911, a sua versão musical oficial só foi aprovada em 1957.

Nesse ano, uma resolução do Conselho de Ministros fixou a versão oficial. Posteriormente, Frederico de Freitas preparou uma versão para grande orquestra sinfónica, enquanto o major Lourenço Alves Ribeiro elaborou a versão destinada a grande banda marcial.

Portanto, decorreram várias décadas entre a adoção do hino e a definição musical oficial que conhecemos atualmente.

Mais do que uma música

Hoje, A Portuguesa acompanha alguns dos momentos mais simbólicos da vida nacional.

Ouvimo-la em cerimónias oficiais, eventos militares, competições desportivas e momentos de homenagem ao país.

Contudo, conhecer a sua origem permite compreender melhor aquilo que representa.

A Portuguesa nasceu num período em que muitos portugueses sentiram o orgulho nacional profundamente atingido. Depois, atravessou revoltas, mudanças de regime e mais de um século de História.

As palavras “Heróis do mar, nobre povo, Nação valente, imortal” continuam, por isso, ligadas à memória histórica de Portugal.

Mais de 130 anos depois da sua criação, A Portuguesa permanece muito mais do que uma composição musical.

É um dos símbolos através dos quais Portugal recorda a sua História, honra o seu passado e afirma a sua identidade.

Fontes: Museu da Presidência da República; Presidência da República Portuguesa; Diário do Governo

Sentinela Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Obrigada pela informação.. não sabia toda a história. O nosso Hino é um dos mais lindos ❤️, para mim “o mais lindo”! ☺️. Viva Portugal 🇵🇹

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