InícioHistóriaJapão ainda recorda a chegada dos portugueses no séc. XVI

Japão ainda recorda a chegada dos portugueses no séc. XVI

Poucos episódios mostram tão bem a dimensão que Portugal alcançou no mundo como a chegada dos portugueses ao Japão. Em 1543, navegadores e comerciantes portugueses chegaram ao arquipélago japonês, e assim começaram a história dos portugueses no Japão no século XVI, abrindo um contacto entre duas sociedades que, até então, praticamente desconheciam uma à outra. Quase cinco séculos depois, ainda existem no Japão marcas desse encontro histórico.

Portugueses chegam ao Japão

A chegada tradicionalmente associada ao ano de 1543 e à ilha de Tanegashima, no sul do Japão, marcou o início de uma nova etapa nas relações entre europeus e japoneses. Fontes históricas japonesas descrevem a chegada de estrangeiros portugueses e a introdução de armas de fogo europeias. A própria Biblioteca Nacional da Dieta do Japão conserva investigação sobre o Teppōki, um relato histórico japonês relacionado com esse acontecimento.

Contudo, a influência não ficou limitada às armas. O contacto desenvolveu-se através do comércio marítimo e inseriu Portugal nas redes comerciais que ligavam o Japão a outras regiões da Ásia. Estudos japoneses mostram que comerciantes portugueses já participavam ativamente nestas rotas durante a década de 1540.

Começava aquilo que ficaria conhecido como o período do comércio Nanban, expressão japonesa utilizada para designar os contactos com os europeus vindos do sul.

Do comércio ao cristianismo

Poucos anos depois surgiu outra dimensão deste encontro. Em 1549, o jesuíta Francisco Xavier chegou ao Japão, iniciando uma missão cristã que seria continuada por outros religiosos.

O cristianismo encontrou comunidades particularmente importantes na ilha de Kyushu. A região de Nagasaki acabaria profundamente ligada a essa história.

Durante décadas, missionários, comerciantes e comunidades japonesas conviveram e trocaram conhecimentos. Não foi uma influência num único sentido: tratou-se de um encontro entre culturas muito diferentes, no qual os japoneses adaptaram elementos estrangeiros às suas próprias tradições.

Esse período deixou marcas religiosas, artísticas e culturais que sobreviveriam muito para além da presença portuguesa.

Quando o cristianismo passou à clandestinidade

Porém, esta abertura não durou.

As autoridades japonesas começaram progressivamente a considerar a expansão do cristianismo e a influência estrangeira como uma ameaça. Seguiram-se restrições e, finalmente, a proibição do cristianismo no início do século XVII.

Muitos cristãos japoneses passaram então a praticar a religião clandestinamente.

Esta história é particularmente impressionante porque algumas comunidades conseguiram preservar elementos da sua fé durante mais de dois séculos, apesar da perseguição e do isolamento.

Hoje, essa memória possui reconhecimento internacional. A UNESCO — Hidden Christian Sites in the Nagasaki Region explica que os locais históricos de Nagasaki testemunham precisamente a tradição desenvolvida pelos chamados “cristãos escondidos” durante o período de proibição. Em 2018, doze desses locais foram inscritos na Lista do Património Mundial.

Uma memória que chegou ao século XXI

É precisamente aqui que esta história ganha uma dimensão surpreendente.

Séculos depois daquele primeiro encontro, a região de Nagasaki continua a preservar património associado à chegada e desenvolvimento inicial do cristianismo no Japão.

Entre as manifestações contemporâneas encontra-se o Festivitas Natalis, realizado em Minamishimabara, associado à memória histórica das comunidades cristãs da região. A celebração procura recriar elementos do ambiente cristão e Nanban existente naquele território durante o século XVI.

Assim, quando vemos participantes com roupas de época, cruzes, estandartes ou referências à cultura europeia, estamos perante uma evocação moderna de uma história iniciada há quase 500 anos.

Importa, contudo, fazer uma distinção: não se trata simplesmente de um festival nacional japonês em homenagem a Portugal. É sobretudo uma celebração da história cristã e cultural da região. A presença portuguesa faz parte desse passado e ajuda a explicar como esse encontro começou.

Portugal deixou palavras no Japão

A influência portuguesa chegou também à língua japonesa.

Algumas palavras japonesas são tradicionalmente associadas ao português do século XVI. Um dos exemplos mais conhecidos é “pan” (パン), relacionado com a palavra portuguesa “pão”. Outro exemplo frequentemente referido é “botan” (ボタン), associado a “botão”.

Além da língua, o contacto com os portugueses influenciou técnicas, objetos, alimentação, comércio e representações artísticas. A chamada arte Nanban tornou-se um dos testemunhos visuais mais fascinantes desse encontro entre Japão e Europa.

Portanto, a presença portuguesa não desapareceu simplesmente quando o Japão restringiu o contacto com o exterior. Parte dela foi absorvida e reinterpretada pela sociedade japonesa.

Quase cinco séculos depois

Portugal é hoje um pequeno país europeu. No entanto, compreender a sua história exige olhar muito para além das suas atuais fronteiras.

Em pleno século XVI, portugueses atravessaram oceanos e chegaram a um arquipélago situado a milhares de quilómetros de Lisboa. Encontraram uma civilização sofisticada, estabeleceram relações comerciais e participaram num encontro cultural cujas consequências sobreviveram durante séculos.

A história posterior também teve períodos de perseguição e sofrimento. A UNESCO salienta precisamente que os locais preservados em Nagasaki documentam as diferentes fases dessa história: o encontro inicial, a proibição, a clandestinidade e, finalmente, o renascimento público das comunidades cristãs depois do levantamento da proibição em 1873.

Por isso, quando hoje encontramos no Japão celebrações, monumentos, igrejas, palavras ou tradições relacionadas com aquele período, encontramos também fragmentos de uma extraordinária história partilhada.

Quase 500 anos depois, do outro lado do mundo, ainda existem vestígios do encontro entre Portugal e o Japão.

E talvez seja precisamente isso que torna esta história tão especial: os portugueses partiram há séculos, mas algumas das marcas desse encontro ficaram.

Fontes: UNESCO, Biblioteca do Japão

Sentinela Lusa

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