Portugal esteve muito perto de perder a independência no final do século XIV. O reino enfrentava uma crise política, social e militar que ameaçava apagar a soberania conquistada mais de dois séculos antes. Contudo, uma parte da população recusou aceitar esse destino. A resistência popular, a liderança de D. João, Mestre de Avis, e o génio militar de D. Nuno Álvares Pereira mudaram o rumo da História.
Uma morte que deixou Portugal sem rei
A crise começou em outubro de 1383, quando D. Fernando morreu sem deixar um filho varão. A sua única filha, D. Beatriz, estava casada com D. João I de Castela. Embora o Tratado de Salvaterra de Magos procurasse proteger a autonomia portuguesa, muitos temiam que a sucessão conduzisse à integração de Portugal na Coroa castelhana.
D. Leonor Teles, viúva de D. Fernando, assumiu a regência. No entanto, uma parte considerável da população desconfiava da rainha e da influência do conde João Fernandes Andeiro, um fidalgo galego próximo da regente.
Portugal ficou, assim, dividido. Parte da alta nobreza apoiava D. Beatriz e o rei de Castela. Por outro lado, muitos comerciantes, populares, membros da pequena nobreza e habitantes de Lisboa apoiavam D. João, Mestre de Avis e filho ilegítimo de D. Pedro I.
Começava a chamada Crise de 1383–1385, um dos períodos mais decisivos da História de Portugal.
Lisboa levanta-se contra a perda da independência
Em dezembro de 1383, o Mestre de Avis matou o conde Andeiro no Paço da Rainha. Logo depois, espalhou-se por Lisboa o rumor de que também queriam assassinar o Mestre. A população correu em seu auxílio e a revolta ganhou força.
Poucos dias mais tarde, D. João foi proclamado Regedor e Defensor do Reino. Porém, o rei de Castela não desistiu das suas pretensões. Em 1384, cercou Lisboa por terra e pelo rio, tentando forçar a rendição da cidade através da fome.
Os lisboetas resistiram durante vários meses. A escassez de alimentos, as doenças e a peste provocaram milhares de vítimas. Ainda assim, a cidade não se entregou. O exército castelhano acabou por levantar o cerco e retirar.
Entretanto, D. Nuno Álvares Pereira já demonstrava a sua capacidade militar. Na Batalha dos Atoleiros, em abril de 1384, as forças portuguesas derrotaram uma força castelhana superior, recorrendo a uma formação defensiva de combatentes apeados.

Portugal escolhe um novo rei
Em abril de 1385, as Cortes de Coimbra proclamaram o Mestre de Avis rei de Portugal, com o nome de D. João I. O jurista João das Regras desempenhou um papel fundamental ao defender que os restantes candidatos não possuíam legitimidade suficiente para ocupar o trono.
Portugal tinha novamente um rei. Todavia, ainda precisava de garantir a independência no campo de batalha.
D. João I de Castela voltou a invadir o reino à frente de um grande exército. O confronto decisivo aconteceu em 14 de agosto de 1385, no planalto de São Jorge, perto de Aljubarrota.
Aljubarrota: uma vitória contra todas as probabilidades
O exército português, comandado por D. João I e por D. Nuno Álvares Pereira, encontrava-se em clara inferioridade numérica. Além disso, contava com o apoio de algumas centenas de arqueiros ingleses. Do outro lado estava uma força castelhana muito mais numerosa, acompanhada por cavaleiros franceses.
Contudo, os portugueses escolheram cuidadosamente o terreno. Prepararam posições defensivas, abriram valas e obrigaram os adversários a avançar por uma frente estreita. Dessa forma, reduziram a vantagem numérica castelhana e dificultaram as cargas da cavalaria pesada.
A disciplina, a preparação do terreno e a estratégia de Nuno Álvares Pereira decidiram a batalha. Ao fim de poucas horas, o exército castelhano desorganizou-se e iniciou a retirada. A Fundação Batalha de Aljubarrota considera este confronto um dos acontecimentos mais decisivos da história e da independência de Portugal.
A vitória confirmou D. João I no trono e afastou o perigo imediato de submissão a Castela. Posteriormente, o Tratado de Windsor, assinado em 1386, reforçou a aliança entre Portugal e Inglaterra. Essa relação diplomática, uma das mais antigas ainda existentes, ajudou a consolidar a nova dinastia.
Uma vitória que abriu caminho para uma nova época
D. João I mandou construir o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, hoje conhecido como Mosteiro da Batalha, para celebrar a vitória. O monumento continua a recordar o momento em que Portugal garantiu o direito de decidir o seu próprio futuro.
A Dinastia de Avis inaugurou também uma nova etapa da História portuguesa. Nas décadas seguintes, o reino reforçou a sua organização e iniciou a expansão marítima. Em 1415, Portugal conquistou Ceuta, acontecimento que marcou o começo da presença portuguesa no Norte de África. No entanto, Ceuta acabaria por ficar espanhola, apesar dos seus profundos vínculos históricos a Portugal.
Aljubarrota recorda-nos que a independência nunca esteve garantida. Portugal venceu porque soube unir vontade popular, liderança política, coragem militar e inteligência estratégica. Éramos menos e enfrentávamos um inimigo mais poderoso. Contudo, naquele dia, Portugal recusou ajoelhar.
Fontes: RTP ENSINA, Fundação Batalha de Aljubarrota
Sentinela Lusa

