Há muros construídos para impedir a entrada de pessoas. O Muro de Berlim ficou para a História sobretudo pelo contrário: foi erguido para travar a saída de cidadãos da Alemanha de Leste para o Ocidente.
Esta diferença ajuda a compreender um dos símbolos mais poderosos da Guerra Fria. Mais de três décadas depois da sua queda, os números continuam a mostrar algo particularmente interessante: quando os alemães recuperaram a liberdade de circulação, o movimento populacional voltou a fazer-se fortemente do Leste para o Oeste.
Uma Alemanha dividida em dois mundos
Depois da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha ficou dividida. Em 1949 nasceram dois Estados: a República Federal da Alemanha (RFA), no Ocidente, e a República Democrática Alemã (RDA), integrada no bloco soviético.
Berlim também ficou dividida, apesar de se encontrar dentro do território da Alemanha Oriental.
Porém, existia um problema crescente para o regime da RDA: os seus cidadãos partiam.
Muitos procuravam no Ocidente melhores salários e oportunidades profissionais. Outros procuravam simplesmente maior liberdade política e individual.
A dimensão do fenómeno tornou-se suficientemente grave para ameaçar a estabilidade da RDA. O próprio Arquivo Federal Alemão explica que o encerramento da fronteira pretendia travar a crescente saída de população da Alemanha Oriental.
Em julho de 1961, apenas um mês antes da construção do Muro, 30.415 residentes da RDA partiram através de Berlim Ocidental.
O regime decidiu então fechar a porta.
13 de agosto de 1961: nasce o Muro
Na madrugada de 13 de agosto de 1961, mais de 10 mil elementos das forças fronteiriças e policiais da RDA começaram a bloquear a fronteira entre os setores de Berlim.
Primeiro surgiram barricadas e arame farpado. Depois chegou o betão.
O resultado foi uma cidade cortada ao meio durante 28 anos.
Famílias ficaram separadas. Ruas terminaram abruptamente numa barreira. Trabalhadores deixaram de conseguir atravessar livremente a cidade. E tentar fugir podia custar a vida.
Segundo uma investigação conjunta do Centro Leibniz de História Contemporânea de Potsdam e da Fundação do Muro de Berlim, pelo menos 140 pessoas morreram no Muro ou em circunstâncias diretamente relacionadas com o regime fronteiriço da RDA. Entre elas estavam 101 pessoas que tentavam fugir e morreram baleadas, em acidentes ou por suicídio durante a tentativa.
Este é um pormenor essencial: um Estado chegou ao ponto de vigiar militarmente as suas fronteiras para impedir os próprios cidadãos de abandonar o país.
1989: quando o Muro deixou de conseguir conter a História
Em 1989, os regimes comunistas da Europa de Leste começaram a desmoronar-se.
A pressão popular aumentou, milhares de alemães orientais procuraram formas alternativas de chegar ao Ocidente e, finalmente, na noite de 9 de novembro de 1989, os postos fronteiriços de Berlim abriram.
As imagens de cidadãos em cima do Muro tornaram-se um símbolo mundial da liberdade.
Contudo, existe uma parte desta história que merece tanta atenção como a própria queda.
Quando desapareceu a barreira, uma parte significativa da população voltou a deslocar-se para Ocidente.

E os números oficiais são impressionantes.
1,2 milhões a mais partiram do Leste para o Oeste
De acordo com o Instituto Federal de Estatística alemão — Destatis, entre 1991 e 2024, o saldo das migrações internas correspondeu a cerca de 1,2 milhões de pessoas a mais a deslocarem-se do Leste para o Oeste do que no sentido contrário, excluindo Berlim.
A intensidade inicial foi particularmente reveladora.
Até ao ano 2000, o saldo acumulado já atingia aproximadamente 611 mil pessoas em direção ao Oeste. Entre 2001 e 2010 juntaram-se mais cerca de 553 mil.
Posteriormente, esta diferença diminuiu substancialmente. Aliás, entre 2017 e 2022 aconteceu algo historicamente relevante: pela primeira vez, o saldo favoreceu ligeiramente o movimento do Oeste para o Leste.
Ainda assim, as consequências demográficas das décadas anteriores permanecem.
O mapa demográfico ainda guarda a cicatriz
Em 1990, os estados orientais, sem contar Berlim, tinham cerca de 15 milhões de habitantes.
Em 2024 tinham 12,4 milhões.
Ou seja, desde a reunificação, a população do Leste diminuiu aproximadamente 16%. No mesmo período, a população dos estados ocidentais aumentou cerca de 10%, atingindo 67,5 milhões.
Naturalmente, esta diferença não resulta apenas da migração interna. Natalidade, mortalidade, envelhecimento e imigração internacional também influenciaram profundamente a demografia alemã.
Contudo, o enorme movimento do Leste para o Oeste após a reunificação é um facto estatístico.
E talvez seja essa a parte mais simbólica de toda a história.
As pessoas votam também com os pés
Durante décadas, dois modelos políticos, económicos e sociais coexistiram lado a lado.
De um lado estava a Alemanha Ocidental. Do outro, uma Alemanha Oriental onde o Estado restringia fortemente a liberdade de circulação.
Quando a barreira desapareceu, centenas de milhares de pessoas procuraram no Oeste melhores salários, emprego, oportunidades e perspetivas de vida.
Esta realidade também deveria fazer-nos refletir sobre o presente. A emigração portuguesa e a saída de jovens qualificados mostram, num contexto completamente diferente e democrático, que nenhum país pode ignorar durante muito tempo as razões que levam os seus cidadãos a procurar oportunidades noutro lugar.
As comparações históricas devem ser feitas com cuidado: Portugal atual não é a RDA e a livre circulação dentro da Europa é precisamente uma liberdade conquistada.
Mas existe uma lição universal que permanece válida.
Um governo pode apresentar estatísticas, fazer discursos e defender o seu modelo político. Porém, existe um indicador particularmente difícil de esconder: para onde escolhem ir as pessoas quando são verdadeiramente livres de escolher?
O Muro caiu em 1989. O movimento das pessoas contou o resto da história…
Fontes: Berlin.de, Destatis
Sentinela Lusa

