Liberdade não é licença para provocar, impor ou desrespeitar. Uma sociedade verdadeiramente livre protege os direitos individuais, mas também exige responsabilidade, bom senso e respeito pelo espaço que pertence a todos.
Vivemos numa época em que a palavra “liberdade” é frequentemente utilizada como argumento definitivo para encerrar qualquer discussão. Basta alguém questionar determinado comportamento e surge imediatamente a resposta: “Tenho liberdade para fazer o que quiser.”
Não… Não temos. E ainda bem.
A liberdade é um dos pilares fundamentais de uma democracia. Deve ser defendida sem hesitações. Mas nenhuma sociedade organizada pode funcionar se transformar a liberdade individual num direito absoluto, desligado das consequências que os nossos atos têm sobre os outros.
Liberdade sem responsabilidade deixa de ser liberdade e transforma-se, demasiadas vezes, em imposição.
O espaço público é de todos
Uma rua, uma praça, um jardim, uma praia ou um transporte público pertencem a todos.
Ao cidadão conservador e ao progressista.
Ao religioso e ao ateu.
Ao heterossexual e ao homossexual.
À criança, ao jovem, ao adulto e ao idoso.
É precisamente por isso que determinados limites são necessários… não posso simplesmente fazer o que bem me apetece em nome de uma hipotética liberdade…
Quem utiliza um espaço comum não pode partir do princípio de que os restantes cidadãos são obrigados a aceitar qualquer comportamento apenas porque esse comportamento é apresentado como uma manifestação de identidade ou liberdade religiosa, sexual ou outra…
Ter direitos não significa deixar de ter deveres...
E estou convencido de que esta regra deve valer exatamente da mesma maneira para todos.

Uma coisa é existir livremente. Outra é provocar deliberadamente
É fundamental distinguir duas realidades.
Uma pessoa poder viver livremente a sua orientação sexual, religião, pensamento político ou forma de vida é uma conquista civilizacional que deve ser protegida… ninguém tem nada a ver com isso.
Outra realidade completamente diferente é utilizar deliberadamente o espaço público para chocar, provocar ou ultrapassar limites de convivência, esperando depois que qualquer crítica seja automaticamente classificada como intolerância ou homofobia. Não é!
É perfeitamente possível defender os direitos das pessoas LGBT e, simultaneamente, considerar que determinados comportamentos excessivamente sexualizados são inadequados num espaço frequentado por famílias e crianças.
Da mesma forma, é possível defender a liberdade religiosa sem aceitar que uma religião imponha as suas regras à sociedade.
É possível defender manifestações políticas sem aceitar violência, vandalismo ou intimidação.
É possível defender uma equipa de futebol sem aceitar que adeptos destruam uma cidade durante os festejos.
O princípio é simples: a liberdade protege pessoas; não transforma todos os comportamentos em intocáveis.
Quando tudo passa a ser permitido em nome da liberdade
Existe hoje uma tendência preocupante: qualquer tentativa de estabelecer limites é rapidamente apresentada como censura, repressão ou intolerância. Não estás de acordo, és racista, fascista, homofóbico, etc…
Mas uma sociedade sem limites não é necessariamente uma sociedade mais livre. Pode simplesmente tornar-se uma sociedade onde vence quem grita mais alto, quem provoca mais, quem ocupa mais espaço ou quem consegue intimidar os restantes através da pressão social.
E existe uma diferença profunda entre tolerância e submissão.
Tolerar significa aceitar que outras pessoas tenham ideias, estilos de vida ou escolhas diferentes das nossas.
Não significa que tenhamos de considerar aceitável absolutamente tudo aquilo que alguém decide fazer.
Essa distinção parece estar progressivamente a desaparecer do debate público.

As crianças também fazem parte do espaço público
Para mim, como pai, há ainda uma questão que não deve ser tratada como secundária: a presença de menores nos espaços públicos.
As crianças não podem simplesmente desaparecer da sociedade porque adultos decidiram transformar determinados espaços numa extensão das suas reivindicações políticas, sexuais, religiosas ou ideológicas.
Os pais têm legitimidade para esperar um mínimo de contenção num espaço público.
Isso não significa esconder às crianças a diversidade da sociedade.
Significa apenas reconhecer que existem comportamentos adequados para determinados contextos e outros que pertencem à esfera privada ou a espaços destinados a adultos.
Durante décadas esta distinção pareceu perfeitamente evidente.
Hoje, questioná-la é por vezes apresentado como prova de atraso social.
Acho que, talvez o verdadeiro atraso seja termos perdido a capacidade de estabelecer limites razoáveis.
Uma sociedade livre também sabe dizer “basta”
Defender limites não significa defender autoritarismo… Pelo contrário…
Os limites existem precisamente para permitir que milhões de pessoas diferentes consigam viver juntas.
A verdadeira liberdade não necessita de humilhar, provocar ou impor.
Não precisa de obrigar os outros a assistir, participar ou aplaudir.
Uma sociedade madura consegue proteger simultaneamente a liberdade individual e o espaço comum.
Talvez esteja na altura de recuperarmos uma palavra que parece ter desaparecido do nosso vocabulário coletivo:
Bom senso.
Porque liberdade sem respeito transforma-se em abuso. Direitos sem deveres transformam-se em privilégio. Tolerância sem limites transforma-se em resignação.
E numa democracia digna desse nome há uma regra que deveria valer para todos:
És livre. Mas não vale tudo… pensa nisto!!
Sentinela Lusa


