A corrupção não rouba apenas dinheiro. Rouba confiança, destrói concorrência, enfraquece a política e cria a sensação de que, em Portugal, há sempre alguém que conhece alguém… as “cunhas”. O problema já não é apenas descobrir quantos casos existem. É perceber quanto custa ao país viver permanentemente desconfiado das suas próprias instituições.
Portugal é um dos países mais corruptos da Europa…
No Índice de Perceção da Corrupção de 2025, publicado pela Transparency International, Portugal obteve apenas 56 pontos em 100 e ficou na 46.ª posição entre 182 países.
Além disso, os números sobre a perceção dos portugueses são ainda mais inquietantes. Segundo o Eurobarómetro citado pela Comissão Europeia, 91% dos portugueses consideravam a corrupção generalizada no país, contra uma média europeia de 69%. Mais ainda: 64% afirmavam sentir-se pessoalmente afetados pela corrupção no quotidiano.
Quando a corrupção entra na política, todos perdem
A corrupção política em Portugal provoca um dano muito superior ao valor colocado num envelope ou transferido entre contas.
Quando surgem suspeitas sobre favorecimentos, conflitos de interesses, tráfico de influências ou relações pouco transparentes entre poder político e interesses económicos, muito se esconde e é a própria democracia que paga a conta.
O cidadão começa a acreditar que alguns conseguem aquilo que outros nunca conseguiriam porque conhecem alguém que faz um “jeitinho”.
Consequentemente, cada novo caso alimenta a ideia do “eles são todos iguais”. E, quando essa convicção se instala, votar parece menos importante, respeitar as instituições torna-se mais difícil e os extremos políticos encontram terreno fértil.
Entretanto, o Conselho da Europa continua a encontrar falhas. Em 2025, o GRECO concluiu que Portugal tinha implementado satisfatoriamente apenas cinco das quinze recomendações relativas à prevenção da corrupção entre deputados, juízes e procuradores. As dez restantes continuavam apenas parcialmente cumpridas… porque será?
E a corrupção não se fica pela política
O problema atinge também autarquias, urbanismo, contratação pública, empresas, licenças e decisões administrativas.
Aliás, a Comissão Europeia identificou o urbanismo como uma das áreas de maior risco e registou que 20% das empresas portuguesas disseram acreditar que a corrupção lhes tinha impedido de ganhar um concurso ou contrato público nos três anos anteriores.
Quando uma empresa acredita que não basta apresentar a melhor proposta porque é necessário conhecer a pessoa certa, a economia deixa de premiar competência e começa a premiar proximidade. Nesse momento, perde o empresário sério, o contribuinte e Portugal…

O pior efeito da corrupção é torná-la normal
Talvez este seja o maior perigo. Não é apenas o dinheiro perdido. É começarmos a aceitar como normal o favor, a cunha, o amigo do amigo, o “jeitinho”, a porta giratória, o concurso feito à medida ou a nomeação difícil de explicar… isto existe em todo o lado!
A corrupção começa a vencer quando deixa de provocar indignação… tudo acaba por ser normal!
Acredito sinceramente que ainda existem magistrados, polícias, jornalistas, funcionários públicos, empresários e cidadãos que todos os dias cumprem as regras… mas também não podemos continuar a responder a cada escândalo como se fosse apenas mais um episódio isolado que vai ser abafado…
Porque, quando 91% dos cidadãos acreditam que a corrupção está generalizada, já existe um problema nacional — mesmo antes de qualquer tribunal determinar quantos crimes foram realmente cometidos e isto é grave!
A corrupção não rouba apenas milhões ao Estado. Rouba algo muito mais difícil de recuperar: a confiança dos portugueses no próprio país. E quando um povo deixa de acreditar que as regras são iguais para todos, é a democracia que começa a pagar a fatura.
Portugal ainda tem muito caminho a percorrer no combate à corrupção… não basta punir quem prevarica: é preciso recuperar a confiança dos cidadãos e devolver credibilidade às instituições e ainda nos falta muito para aqui chegar!
Fontes: Comissão Europeia / Eurobarómetro / Transparency International / Conselho da Europa — GRECO
Sentinela Lusa

